Terra
Capítulo 7
— A televisão é mentira.
Deixou que o silêncio se adensasse.
E o silêncio deu lugar ao sorriso, e logo uma gargalhada coletiva se espalhou por toda a sala.
— Bem, aí têm a vossa parangona para amanhã. Tudo, absolutamente tudo, é mentira.
— O público começou a aplaudir.
Ao fim de vários minutos, deixaram-no continuar.
— Contratamos atores para produzir notícias falsas que, depois, nos servem para encher programas de conversa e revistas cor-de-rosa, que, naturalmente, também pertencem à nossa empresa; sujamos cozinhas de propósito, para depois podermos criticar os restaurantes, e, assim, voltar a limpá-las; enchemos as arrecadações com os objetos que desejamos, para que as audiências subam; contratamos vendedores fictícios, para que levem objetos antigos de determinadas marcas para as casas de penhores, e, assim, ganhamos dinheiro sob a forma de publicidade encoberta; fazemos com que um aventureiro atravesse um rio gelado numa paragem inóspita, sem mostrar que, a alguns metros, há uma ponte, uma estação de serviço e até um McDonald’s junto à autoestrada. Manipulamos os concursos, de modo que o prémio vá para o participante mais popular entre o público, aquele que pode dar-nos mais audiências, e não para o que mais sabe. Ao espertalhão aborrecido, calham sempre perguntas cuja resposta nem na Internet se conseguiria encontrar. Por detrás de cada criança com jeito para a cozinha, está um chef que elabora os pratos que depois aparecem no ecrã… Tudo, absolutamente tudo, em televisão, está adulterado. Tudo é mentira.
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