Terra
Capítulo 96
— A Andrea bateu onde mais dói, no único sítio que pode prejudicar os ricos.
— Na sua imagem exterior — respondi.
— Sim. Todo o peixe graúdo sabe que os seus filhos e filhas vêm para cá praticar sexo, embebedar-se, drogar-se, que não fazem absolutamente nada… Mas uma coisa é sabê-lo na intimidade, outra, muito diferente, é tornar-se público. A imagem… é preciso manter uma imagem de santidade, mesmo que se seja o preciso contrário.
O reitor levantou-se e dirigiu-se a um pequeno minibar, tirando três copos.
— Foi muito bem-feito… Muito bem calculado…
Trouxe os copos e pousou-os em cima da mesa.
Voltou a sentar-se.
— Ora bem, foi na festa da primavera, uma festa que nunca existira na faculdade, mas que tivemos de criar, pois, do Natal até ao fim do ano letivo, havia demasiado tempo sem diversão.
»A festa consistia em mais do mesmo: apanhar uma bebedeira, consumir drogas e praticar sexo. Foi organizada num grande jardim afastado da universidade, mesmo junto ao lago. Nesse dia, todos chegaram mascarados de hippies, mas com roupa de marca original, a exibir joias e carros.
»Na altura, o último grito da moda era ter um Tedison, um carro que custava milhares de dólares. Quem chegasse à festa com um desses modelos tinha… digamos assim, diversão assegurada. Dos mil alunos existentes, cerca de cem chegaram em automóveis desses.
»Tudo se passou às 00h00 em ponto. Calculo que os zeros tinham algum significado para ela. Com efeito, tinha dois tatuados, um em cada palma da mão.
»A festa estava a decorrer dentro da normalidade: música, álcool, gargalhadas. Por essa altura, havia muitas pessoas a praticar sexo dentro dos carros. Parecia o cenário do costume, até que, de repente, os acontecimentos se precipitaram.
»Alguém conseguiu aceder ao sistema operativo dos carros e ligou as câmaras interiores. Em alguns segundos, as imagens começaram a ser transmitidas em direto pelas redes sociais. Os pais e as mães viram imediatamente os filhos e as filhas a fornicar, a fazer felações, a drogar-se…
»Mas a coisa não ficou por aí. Às 00h03, as portas dos veículos foram bloqueadas, e estes começaram a circular por todo o campus a uma velocidade de precisamente dez quilómetros por hora. Quem o fez não tinha a intenção de prejudicar, apenas de semear o caos. Ainda assim, aquilo acabou com dezassete jovens no hospital e milhares de minutos de imagens espalhadas pela Internet.
— E como souberam que foi ela?
— Nunca soubemos. A Andrea não deixou uma única pista. Nunca poderia ser acusada de nada.
— Então…
— No dia seguinte, veio a este gabinete e disse-me que terminara a sua tese de fim de curso, há muitos anos! Deixou-me uma pasta em cima da mesa em que dizia: «Aceso remoto a veículos autónomos.» Lá dentro, não havia nada.
»Atribuímos-lhe um cum laude, e não teve de fazer mais nada. Demos-lhe o grau sem ter terminado o curso, mas merecia-o, sem dúvida.
Suspirou.
— Foi a última vez que a vi. Passados poucos meses, soubemos que se tinha apresentado a concurso.
— Bela história…
— E é apenas isto. Acho que não tenho muito mais para vos contar acerca da Andrea.
Fez-se silêncio.
— Se puder ajudar-vos em mais alguma coisa… — insistiu.
— Ora bem, calculo que os alunos tenham algum tipo de cacifo, por aqui — perguntei.
— Sim, claro.
— E é possível que a Andrea ainda tenha o dela?
— Não, não é provável. Já deve estar atribuído a outro aluno.
— Seja como for… poderíamos vê-lo?
— A que propósito?
— Vejamos, é que…
Nesse momento, contámos-lhe por alto a história do jogo das chaves e das pistas e de como tínhamos chegado à universidade. Dissemos-lhe que pensávamos que a chave que tínhamos podia ser a do cacifo da Andrea ou de algum espaço que lhe pertencesse.
O meu irmão mostrou-lhe a chave, e, mal a viu, o homem sorriu.
— Acho que vieram ao sítio errado.
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