Terra

Eloy Moreno · Capítulo 197 de 205

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Terra

Capítulo 200

Depois do almoço, voltámos à casa e andámos à procura de uma caixa, de um cofre, de uma gaveta escondida… algo que pudesse abrir-se com aquela chave.

Quando já estávamos há quase duas horas sem conseguir qualquer resultado, decidimos visitar a mulher. Caminhámos até à sua casa.

Os cães voltaram a ladrar.

A porta estava aberta.

Chamámos, e esperámos à entrada até ela aparecer. Ficou surpreendida ao ver-nos.

— Olá — cumprimentámos.

— Olá… — respondeu, quase a tremer. — Peço-vos que me desculpem pelo que aconteceu hoje de manhã. Não queremos problemas. Garanto-vos que o meu pai não voltará a incomodar-vos. Não se preocupem…

— Fique descansada, não há nada para perdoar. Não viemos por isso. Queríamos explicar-lhe o que estávamos a fazer naquela casa e, se possível, fazer-lhe algumas perguntas.

A mulher olhou para os dois lados. Convidou-nos a entrar.

Já lá dentro, ofereceu-nos um café, e sentámo-nos os três à volta de uma mesinha.

— Onde está?

— Quem? O meu pai?

— Sim.

— Bem, está no quarto. Chegou muito nervoso, dei-lhe um calmante. Mais uma vez, peço desculpa pelo sucedido. O problema é que está sempre sozinho. Não há aqui nada para fazer, e, quando aparece alguém na zona, vai logo tentar perceber o que se passa. Por isso, quando vos viu, a primeira coisa que fez foi aproximar-se, para saber o que estava a acontecer. Suponho que agora esteja a dormir. Agradecia que não fizéssemos muito barulho.

Fomos-lhe contando toda a nossa história: o jogo das chaves, as várias pistas, como tínhamos chegado àquela casa…

Quando já estávamos a falar há um bom bocado e ela parecia menos nervosa, puxei o assunto do centro psiquiátrico.

— Se querem que vos diga a verdade, ainda hoje não sei porque o internaram. Segundo a polícia, detiveram-no por ter entrado numa casa sem autorização: invasão de propriedade. Mas disseram-me que, depois, tudo se complicou. Quando o foram meter no carro, começou a gritar, a ficar nervoso, teve um acesso de… Levaram-no diretamente para o centro psiquiátrico, sedaram-no e mantiveram-no isolado durante umas quantas horas.

A mulher puxou de um lencinho.

— Como podem imaginar, um homem como o meu pai, um corpo tão frágil, uma pessoa com a idade dele… que mal poderia fazer? Não tinham o direito de o tratar assim, não tinham o direito…

Bebeu um gole de café.

— Só me avisaram no dia seguinte. Passei mais de vinte horas sem saber nada dele. Procurei-o pelas redondezas, de noite, inclusive. Espreitei do cimo de todas as falésias, na costa, com medo de o encontrar ali, estendido no chão. A pensar que tivesse caído e… Por isso, quando o telefone tocou, imaginei o pior.

Bebeu outro gole de café.

— Disseram-me que, como não levava documentos, tinham demorado a localizar-me… Mas é absurdo. Aqui, conhecemo-nos todos.

»Quando o fui ver, estava sedado, mal falou comigo. Disseram-me que tinha de ficar mais um dia, para lhe fazerem exames.

»No dia seguinte, à tarde, levei-o para casa, mas trazia um presente: tinham-lhe posto uma pulseira eletrónica como condição, para não apresentarem queixa contra ele.

»Falámos do que ocorrera, mas, no momento em que lhe perguntei porque tivera um surto naquela casa, ficou em silêncio.

— Não lhe contou nada? — insisti.

— Conheço bem o meu pai, e, quando fica em silêncio, é porque há alguma coisa que, na sua mente, não lhe permite falar. Tenho a certeza de que descobriu lá qualquer coisa importante.

— E não conseguiu perceber o que era? — quis eu saber.

— Impossível. Das poucas vezes que lhe perguntei sobre isso, entrou em crise e ficou tão nervoso, que tive de o medicar. Só uma vez me conseguiu dizer que tinha feito uma promessa ao pai da Veruca. Mas o mais estranho de tudo é que, segundo me disse, se quebrasse essa promessa, poria a minha vida em perigo.

— E, passado pouco tempo, o pai da Veruca morreu…

— Sim. Segundo ele, assassinaram-no. A verdade foi que a coisa me assustou o suficiente para não lhe fazer mais perguntas sobre o assunto.

— O que se passou depois com a casa?

— Quando o pai da Veruca morreu, veio um camião para fazer as mudanças. Acho que o meu pai deve ter ficado por ali a vê-los tirar tudo o que se encontrava lá dentro.

— E depois?

— Bem, a casa ficou vazia durante muito tempo, até que, há uns anos, foi para lá viver uma família. Acho que a arrendaram a alguém.

Nesse momento, pensei na mãe de Veruca. Não nos tinha dito nada acerca disso. Continuei o interrogatório.

— Lembra-se de como era essa família?

— Sim, eram quatro pessoas: um casal com duas filhas. Na verdade, não falei muito com eles, eram muito reservados. Tive mais contacto com a mulher, simplesmente porque, às vezes, nos encontrávamos pelo caminho. Era uma pessoa comum, sim, muito vaidosa. — Sorriu. — Mudava de look com frequência. De vez em quando, usava o cabelo louro, outras, escuro…

Aquilo explicava a história das perucas.

— Era simpática. Uma ou outra vez, veio pedir-me um pouco de sal ou de azeite, o costume, mas mais nada. O marido é que assustava um pouco — disse-me.

— Assustava?

— Bem, não tinha propriamente medo, tinha respeito. Era um homem muito grande, que, além disso, andava sempre de óculos de sol e boné. Nunca lhe vi os olhos.

— Usava barba? — perguntei, nervosa.

— Sim, uma grande barba. Como sabe?

— Porque talvez esse homem faça parte das pistas que andamos a seguir. E as filhas?

— Uma delas era uma menina, a outra, adolescente. Mas também não as vi muito. Às segundas-feiras de manhã, muito cedo, vinha uma carrinha daquelas da quinta-escola e levava-as. Só voltavam muito tarde, às sextas-feiras, já de noite. Portanto, via-as durante o fim de semana, mas muito poucas vezes; mal saíam para brincar. A mais velha ficava fechada em casa, e a pequena, de vez em quando, corria lá fora, mas, como lhe disse, era raro.

— Uma carrinha da quinta-escola?

— Sim, é uma espécie de escola alternativa. O facto fez-me duvidar de que fossem filhas deles.

— Porquê?

— Bem, essas quintas-escolas são uma espécie de orfanatos modernos. Muitas das crianças que ali se encontram são órfãs ou vêm de famílias cujos pais se encontram na prisão ou, por circunstâncias diversas, não podem tomar conta deles. Por isso, pensei que talvez fosse uma família de acolhimento. Enfim, estou só a dizer…

Nesse momento, eu e o meu irmão olhámos um para o outro.

— De que cor são essas carrinhas? — perguntou ele.

— Ora bem… acho que são amarelas — respondeu a mulher.

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