Terra
Capítulo 196
No dia seguinte, o som do telemóvel despertou-me. Olhei para o número: desconhecido. Peguei nele, entusiasmada. Lembrei-me do início da minha carreira, quando ser jornalista não consistia em estar cem horas à frente de um ecrã para descobrir se a notícia que se estava a ver era real ou, simplesmente, fake.
— Sim? — disse, ao atender.
— São os senhores que procuram informação… — respondeu-me uma voz que falava quase em surdina.
— Somos, sim.
— Têm a outra metade dos quinhentos dólares?
Acordei o meu irmão, e, em apenas meia hora, já tínhamos tomado duche e bebido café.
Havíamos combinado com ele no parque de estacionamento de um supermercado situado junto à estação de serviço, à entrada da povoação.
Localizámos ali a carrinha vermelha de caixa aberta. Aproximámo-nos dela a pé. Tinha o vidro aberto.
— Trouxeram o dinheiro? — perguntou o homem de meia-idade, com cara de poucos amigos.
— Primeiro, a informação — disse.
— Não, primeiro, o dinheiro — insistiu, imperturbável.
— E se não for esse o lugar…? — interrompeu o meu irmão.
— Não vos resta outro remédio senão arriscar. Seja como for, a verdade é que não tenho muitos sítios para onde ir. Encontram-me com facilidade.
Olhei para o meu irmão e dei-lhe o dinheiro.
Entregou-nos um papel, ligou o motor do veículo e desapareceu.
A surpresa surgiu quando introduzimos a morada no GPS: a casa ficava a menos de dez minutos dali; em direção às piscinas termais, onde, em dado momento, o tinham visto.
Dirigimo-nos para norte, contornando a costa, por uma estrada estreita que deixava as montanhas à esquerda e, à direita, dezenas de quintas e casas dispersas que quase tocavam o mar. Podia ser qualquer uma delas.
Chegámos a uma estrada que conduzia a um aglomerado de casas, separadas umas das outras por alguns metros.
— Segundo o GPS, é aquela — disse ao meu irmão.
Desviámo-nos por um pequeno caminho delimitado por estacas de madeira e que, praticamente, acabava no mar. Quando nos aproximámos, vários cães começaram a ladrar.
Estacionámos lá fora. Não havia ninguém por ali, apenas os cães, que, apesar de continuarem a ladrar, não pareciam ter intenção de atacar.
Saímos do carro.
Introduzi a chave, com nervosismo… e a porta abriu-se.
Entrámos.
Escuridão.
Abrimos as janelas, para que a luz iluminasse uma casa que parecia vazia. Havia móveis, mas dava a impressão de que não vivia ali ninguém há muito tempo.
Percorremos todas as divisões do piso térreo: uma cozinha ampla, uma sala de jantar e dois quartos, nada de invulgar.
Foi quando subimos ao primeiro andar que deparámos com algo estranho naquele que parecia ser o quarto principal. Em cima do toucador, havia várias perucas colocadas em cabeças de manequins quase informes. O aspeto de tudo aquilo era macabro.
— São todas de mulher — disse o meu irmão.
— Pois, parece que sim. Estranho.
Saímos em direção ao último quarto, aquele que ficava ao fundo do corredor, e ali, em cima de uma pequena mesa, descobrimos a chave dourada: tínhamos chegado ao fim do jogo.
Peguei nela, olhámos um para o outro. Sorrimos.
Nesse momento, ouvimos um som no rés do chão, como se alguém tivesse aberto a porta.
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