Terra
Capítulo 74
— Não sei como começar… É uma terra pequena, e o Frank era o único pediatra, uma pessoa muito querida. Era bonito e simpático e acertava quase sempre nos diagnósticos. A verdade é que não posso dizer mais a esse respeito… — Ficou em silêncio.
— Mas…? — perguntei.
— Bem… enfim… — interrompeu-se durante alguns instantes —, também se dizia que tocava demasiado nas crianças.
Eu e o meu irmão olhámos um para o outro, sem dizer nada.
— Na verdade, não havia qualquer prova, não passavam de rumores: sim, por vezes, despia-os sem necessidade, acariciava-os… coisas assim. Mas ninguém podia provar nada.
Ficou de novo em silêncio.
— Um dia, o meu filho ficou doente: a febre começou a subir rapidamente, tinha o corpo inteiro a tremer. Assustei-me tanto, que o chamei cá a casa.
»O Frank atendeu o telefone à primeira e disse-me que não me preocupasse, que chegaria dali a alguns minutos. Enquanto esperava por ele, lembrei-me de utilizar uma câmara…
A mulher afastou o olhar.
— Mal chegou, fomos logo para o quarto do meu filho, e ali começou a auscultá-lo e a medir-lhe a febre. Olhei para o telemóvel e disse-lhe que tinha uma chamada. Fui lá para fora, para o jardim. Instalei-me a cerca de trinta metros da casa, suficientemente longe para que me pudesse ver da janela. Assim, poderia agir livremente.
A mulher interrompeu-se de novo e chorou, as lágrimas correndo-lhe pelas faces. Nem eu nem o meu irmão fomos capazes de lhe dizer fosse o que fosse; deixámos que desabafasse. Continuou.
— Sim, sei que agi mal, e arrependo-me, mas queria saber se era verdade. Na realidade, convenci-me de que aquilo podia ser bom para todos. Disse a mim mesma que, se o Frank não fizesse nada com o meu filho, eu seria a primeira a defendê-lo de qualquer acusação.
»Fiquei a dar voltas pela relva do jardim, a fingir estar a ter uma conversa que nunca existiu. Passados cinco minutos, mais ou menos, voltei para casa.
»Entrei de novo no quarto e não notei nada de estranho. Explicou-me que não era grave. Um vírus que atacara com mais força do que o normal. Receitou-me uns medicamentos e pouco mais. Despedimo-nos e, até aí, correu tudo dentro da normalidade. O problema surgiu quando vi a gravação da câmara.
OceanofPDF.com