Terra
Capítulo 36
Concorrente Número 1
— Não vamos adiar mais, Steven, pois temos milhões de espectadores à espera.
— Vamos lá! Comecemos por revelar os nomes…
— Ora bem, ora bem… — brincava a apresentadora, enquanto abria o primeiro envelope e olhava para o cartão que se encontrava dentro dele. — Então, então, então…
— Quem é? Quem é, Alison?
— Só te posso dizer que ninguém ficará surpreendido com a sua escolha, garanto-te. É um dos favoritos.
Apagaram-se as luzes, começou a ouvir-se a música do programa, e a fotografia do escolhido apareceu no ecrã.
Frank Smith
Concorrente n.º 230 656
31 anos
Pediatra
As centenas de pessoas que ocupavam o plateau começaram a gritar, entusiasmadas. Frank fora, desde o início do programa, um dos preferidos do público e, naturalmente, da própria organização. Um homem muito atraente, de olhos azuis e cabelo escuro. Um metro e oitenta e seis de altura, compleição atlética, inteligente e simpático.
Entre os milhares de inquéritos e rankings realizados, aparecia sempre como um dos cinco candidatos que, com certeza, partiriam para Marte. Por isso, ninguém estranhou ter sido o primeiro escolhido, o mais votado.
— Parece que gostaram, não é verdade? — comentava o apresentador, enquanto piscava o olho à colega.
— Claro, como haviam de não gostar? Que motivos teriam para ficar desagradados?
E o plateau começou a aplaudir de novo.
— Frank, está a ouvir-me? — perguntava a apresentadora, ao mesmo tempo que, no ecrã, se apresentava a imagem de um homem a chorar, abraçado ao resto dos companheiros. — Frank?
— Sim, Alison. Estou a ouvir, mas nem acredito!
— Então, acredite! Já está, já está. Foi o primeiro a ser selecionado para rumar a Marte.
Frank não parava de receber felicitações e abraços dos outros concorrentes.
— Muito bem — continuou o apresentador. — Vai ser complicado falar com ele agora. Assim sendo, vamos passar o vídeo que gravou há alguns dias para vos convencer a votar nele nesta fase final, sim, a vocês, os verdadeiros protagonistas de toda esta aventura.
O plateau escureceu de novo, e foi exibido um vídeo em que Frank se apresentava e explicava rapidamente a sua vida. Uma vida que, afinal, o planeta inteiro já conhecia. A de um homem com uma infância comum, que se destacara nos estudos, que seguira a formação em Medicina com excelentes notas e que dava consultas às crianças de uma pequena aldeia. Os pais também apareceram a falar dele com orgulho. Quanto às suas relações pessoais, não tivera filhos, nem par conhecido.
Adorava a profissão de pediatra, algo que, como o próprio dizia, não tinha muito sentido em Marte nesse momento, mas quem saberia se, no futuro…
E aquilo que, de início, poderia ter constituído um inconveniente transformou-se numa vantagem, porque, de uma maneira ou de outra, todos tinham esperança de que um dia nascesse um ser humano em Marte, talvez nas missões seguintes.
*
Aquilo que o vídeo não mostrava era a outra verdade, aquela que o dinheiro se encarregara de ocultar. Uma verdade que a organização conheceu tarde, quando a sua popularidade se encontrava no ponto mais alto, quando as empresas se digladiavam por causa dele e retirá-lo do concurso teria sido equivalente a matar a galinha dos ovos de ouro. Decidiu-se que a verdade não interessava, que, de momento, em Marte, essa verdade não tinha importância.
Talvez se o público, em vez de se preocupar com o aspeto dos correntes ou com a sua simpatia, tivesse feito outras perguntas… Como, por exemplo, quais são as razões que levam uma pessoa a abandonar a Terra para sempre?
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