Terra
Capítulo 106
Um novo dia começava na colónia. As câmaras voltavam a mostrar a rotina que envolvia tudo: a higiene matinal a seco, muito rápida, a roupa do dia anterior, a visita à cozinha para preparar a comida embalada… Longe ficavam os pequenos prazeres da vida, como um duche com água quente, o cheiro a torradas acabadas de fazer ou estrear roupa comprada na véspera.
Depois de reunir e reciclar as embalagens, a primeira coisa que cada um dos elementos da colónia fazia era ligar os dispositivos eletrónicos para alimentar o ego. Desejavam saber o que acontecera na Terra enquanto dormiam, o que tinham dito acerca deles, quanto haviam aumentado os seus seguidores ou qual a fotografia com mais gostos.
Alguns, como Miss, o Mãozinhas e Veruca, passavam horas a responder aos seus seguidores, a enviar vídeos em direto, a desmentir notícias, a explicar as suas ações, que eram mal interpretadas pelas imagens das câmaras.
— Bem, parece que ontem à noite houve movimentações nos corredores — referiu o militar, sem qualquer tipo de intenção.
Ninguém disse nada.
— Parece que sim. E onde está a Miss? — perguntou a Doutora. — Alguém a viu?
Nem o Mãozinhas nem o Jardineiro disseram nada. Cada um desconfiava de que fora o outro que passara a noite com ela. Tinham concordado em manter aquele estranho caso a três, mas nenhum deles queria reconhecer que, nessa noite, não fora o escolhido.
— Bem, vejo que hoje não estão muito faladores. Vou ver se ela está bem. É estranho não ter tomado o pequeno-almoço com toda a gente — disse a Doutora, enquanto se afastava.
As câmaras perseguem uma mulher que atravessa o corredor e chega ao quarto de Miss. As audiências são excelentes, em comparação com outra manhã qualquer: todos querem saber quem esteve no quarto na noite anterior. E não apenas por causa da excitação que a informação provoca, mas porque há dinheiro em jogo: as apostas iam de três a um a favor do Mãozinhas.
A Doutora bate à porta do quarto, mas ninguém responde. Volta a bater. Nada. «É estranho», pensa, e empurra suavemente a porta: Miss está encolhida na cama, em posição fetal, tapada com os lençóis.
Aproxima-se dela em silêncio, põe-lhe a mão nas costas e, lentamente, vira-a e descobre a agitação nos seus olhos: estão demasiado inchados.
Miss abraça-a com força, como a um salva-vidas que alguém encontra no momento preciso em que o mar parece estar a levar a melhor.
— Calma… fala comigo… O que se passa? — sussurra, receando o pior.
Sabe que, ali, uma doença pode ser mortal.
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