Terra
Capítulo 105
— Nunca mo explicou, ou talvez tenha sido eu que não soube compreender. Dizia-me sempre que a empresa não permitia que se falasse do assunto. Contava-me coisas sobre cópias de segurança, computadores, dados… Fiquei com a ideia de que era um centro para fazer reproduções de tudo o que a estação transmitia.
— Bem, era mais ou menos isso — interveio o meu irmão. — Guardava-se ali tudo o que se gravava no programa. Claro que só uma pequena parte era posta no ar, mas, por lei, tínhamos de gravar tudo o que acontecia, para o caso de ser necessário, em algum momento.
»Suponho que o seu marido terá tido de assinar algum contrato de confidencialidade. Era esse o motivo pelo qual não lhe podia contar o que ali se passava.
— Sim, acabava sempre por me dizer que não podia falar do assunto. Mas não me parecia assustado, nem preocupado. Sempre que o ia visitar à Islândia… era como se quisesse contar-me qualquer coisa e não o pudesse fazer.
— Devia ter medo — disse o meu irmão. — O mais provável era estar a ser vigiado. Talvez por isso fosse a senhora que tinha de lá ir visitá-lo. De certeza que em sua casa havia câmaras e microfones escondidos.
— O quê? — Olhou para mim, surpreendida.
— Sim. Assim, o meu pai garantia que nenhum contrato de confidencialidade era quebrado.
— Mas o que aconteceu? Como morreu o seu marido? — disse, tentando desviar a conversa para a indemnização.
Cerrou ligeiramente os dentes.
— Era de noite, já. Estávamos todos deitados, o telefone tocou. Nesse dia, aprendi que as notícias nunca são boas quando o telefone toca de madrugada.
Permaneceu em silêncio por alguns instantes.
— Uma voz pediu-me desculpa pela hora e perguntou-me o meu nome. A frase seguinte foi: «Lamento comunicar-lhe que o seu marido morreu.» Assim, rápido, simples, sem contemplações com a dor. Por alguns segundos, fiquei sem palavras, como se tivesse sido um pesadelo.
»Quando fui capaz de reagir, explicaram-me que tinham organizado um passeio até um glaciar e que o meu marido tivera um acidente. Azar, coisas que acontecem. O gelo que se encontrava por baixo dos seus pés tinha cedido, e ele caíra de mais de vinte metros, embatendo contra o solo. A morte fora imediata, não sofrera.
A mulher parou de falar.
— Lamento imenso — disse, enquanto a abraçava.
— A verdade é que a empresa se portou muito bem connosco. Fomos à Islândia, pagaram-nos tudo, mostraram-nos o relatório da polícia. Tivemos acesso às fotografias que tinham sido tiradas, aos pormenores do resgate. Mostraram-me o corpo do meu marido…
— Tudo parecia estar em ordem — disse o meu irmão.
— Sim, é verdade.
A mulher afastou-se lentamente de mim e limpou os olhos.
— E é apenas isto. Deram-nos uma indemnização. Sim, era muito dinheiro, mas eu não sabia se era normal ou não.
— Na realidade, não é nada normal, é demasiado — interveio o meu irmão.
Nesse momento, gostava de lhe ter perguntado como era possível uma pessoa gastar todo aquele dinheiro e ficar arruinada, mas não era a altura certa. Tinha de continuar a pensar. O meu pai conduzira-nos a esta mulher por algum motivo. Mas, agora, não se tratava de uma concorrente. Tínhamos de pensar noutro padrão, em algo que nos levasse à chave seguinte.
Olhei para o meu irmão e percebi logo que estava tão perdido como eu.
Passados alguns minutos em silêncio, tive uma ideia. O meu irmão olhou para mim, surpreendido, quando fiz a pergunta.
— Mais uma coisa: por acaso, o seu marido não era órfão?
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