Terra
Capítulo 132
— O nosso pai?
— Bem, não pessoalmente, claro, mas tenho a certeza de que foi ele que deu a ordem.
Apertou a mão do meu irmão e, de repente, mudou de assunto. Como se a morte do marido não fosse mais do que a consequência daquilo que começou com Veruca.
— Sempre me opus. Pareceu-me uma loucura, mais um capricho de uma menina mal-educada. Ambos tínhamos deixado muito claro, desde o início, que não iria para Marte. Na verdade, foi ele, o pai, que o esclareceu desde logo. Tínhamos passado por tanta coisa para que ela nascesse… Mas a Vera era a Vera, e continuou a insistir. Pensava que, como sempre, acabaria por levar a sua avante. Quando quis um carro, o pai ofereceu-lhe um Ferrari; quando quis casa própria, o pai ofereceu-lhe um apartamento em Nova Iorque e outro em Paris. Tínhamos dinheiro de sobra, e ela era filha única.
Respirou.
— Um dia, o pai disse-me que conseguira que a aceitassem nas provas de acesso ao concurso. Nesse dia, desabei, literalmente. Desmaiei na cozinha. Porque já sabia que a seleção dos concorrentes fora combinada e que, se quisessem, ela poderia chegar à final. E então iria, e eu ficaria sem a minha menina. Supliquei-lhe, até me ajoelhei…
»A miúda queria viver a experiência, disse o pai.
»Eu avisei-os de tudo o que podia acontecer, mas, quanto mais falava, maior era a vontade que ela tinha de ir. Ataquei-a onde mais doía: disse-lhe que as redes sociais ficariam contra ela, que, se chegasse à final, acabariam por saber que fora tudo arquitetado, que lhe enviariam mensagens desagradáveis…
— E isso não a fez repensar?
— Nada disso. Chegaram algumas mensagens negativas, sim, mas a maior parte era de incitamento, dos seus seguidores, dos seus fiéis…
»O meu marido dizia que não fazia mal, que só lhe faria bem, para amadurecer. É curioso ter sido a pessoa a educá-la daquela maneira a dizê-lo, a mesma pessoa que lhe permitira tudo.
»Mas eu sabia que ela não ia aguentar. Nunca esteve preparada. Por nisso, nesse dia, quando vi aquele corpo a deambular de noite…
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