Terra
Capítulo 162
— Como se abria? — perguntou o meu irmão.
— Ainda não sei. Mas talvez com este porta-chaves, por isso me lembrei dele; talvez isto — disse enquanto lhe pegava — também seja uma chave. Aquele desportista limitou-se a pôr a mão na porta, e ela abriu. Dias depois, estive a analisá-la e não descobri nenhum detetor de calor, de impressões digitais, nem nada do género. Estou habituado a ver todo o tipo de tecnologia, mas continuo sem saber como aquela porta se abria. Das três ou quatro vezes que vi ali alguém, a celebridade em causa punha a mão na porta, e esta abria-se, assim, sem mais nada. Tentei mil vezes e nunca consegui. Talvez tivessem este porta-chaves na mão…
— Então, temos duas chaves?
— Eu diria que sim, segundo o que me contaram: a da casa do pai da Veruca e, certamente, a da tal sala… — Nesse momento, perdeu-se de novo em pensamentos.
— O que se passa? — perguntou o meu irmão.
— Não sei se vos pode ser útil, mas, quando vi as duas chaves juntas, lembrei-me de que, naquela sala, aconteceu uma coisa entre o vosso pai e o pai da Veruca. Foi precisamente no dia depois do nascimento da Terra. Toda a gente estava feliz, por isso me lembro. Foi uma espécie de contraste com toda aquela felicidade.
Eu e o meu irmão olhámos um para o outro.
— Nesse dia, eu também estava na sala de domótica. Tinha a porta fechada, pelo que não se aperceberam da minha presença. Comecei a ouvir gritos, e o pai da Veruca saiu da tal sala, furioso. Gritava com o vosso pai, insultava-o. Falavam de lealdade, de responsabilidade, mas o que mais recordo foi que não parava de dizer uma frase: «Vou contar-lhe, vou contar-lhe.» Era como um mantra. Não parava de a repetir. O vosso pai respondia-lhe também aos gritos, a pedir-lhe que a deixasse em paz, que já lhe fizera mal suficiente, que a deixasse viver descansada os dias que lhe restavam…
Eu e o meu irmão olhámos um para o outro.
— Referir-se-ia à mãe da Veruca? — perguntei ao meu irmão.
— Suponho que sim, não sei. Sempre pensei que entre o pai e essa mulher havia qualquer coisa. Posso garantir-te que o pai gostava muito dela.
— Quer dizer que tinha razão quando nos contou aquilo tudo em casa dela — dirigia-me ao amigo do meu irmão: — Ela pensava que o marido lhe ia apresentar a nova companheira e pedir o divórcio.
— Então, tudo o que vocês disseram faz sentido, se vos contar o que aconteceu depois — continuou. — Depois de vários minutos a discutir, o vosso pai disse uma frase que deixou tudo em silêncio: «Se o fizeres, mato-te, juro-te, mato os dois.»
— E o pai da Veruca morreu poucos dias depois, num acidente — intervim.
— Sim, e esta frase fez todo o sentido para mim, porque o vosso pai disse «mato os dois», e, embora nunca tenha sido anunciado em nenhum meio de comunicação social, na ilha, correu o rumor de que o pai da Veruca não tinha morrido sozinho. Dizia-se que ia acompanhado naquele carro.
— Talvez o nosso pai tenha querido evitar mais sofrimento a uma mulher que já perdera tudo. Uma mulher que, quando a vimos, estava mais perto da morte do que da vida — acrescentou o meu irmão.
— E a nova companheira do pai da Veruca? Teria família? Alguém daria pela sua falta? — quis eu saber.
— Bem — comentou o amigo do meu irmão —, dizia-se que o pai da Veruca andava com mulheres que tinham uma vida complicada, sem família, sem lar, sem ninguém que se lembrasse delas se desaparecessem, que tinham de fazer coisas que não queriam ter de fazer…
Ficámos durante alguns instantes sem proferir uma palavra sequer, a tentar assimilar aquilo tudo.
— Voltando ao assunto da sala, calculo que, depois do que se passou, já não exista, certo? — perguntei.
— Essa não existe, mas há uma nova, a que se encontra no museu.
— No museu? Que museu?
— O museu que substituiu o centro de controlo — disse, olhando para o meu irmão—, quando aconteceu a tragédia.
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