Terra

Eloy Moreno · Capítulo 175 de 205

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Terra

Capítulo 177

Fim

 

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Era uma sexta-feira comum, em que cada um dos habitantes da colónia fazia a sua vida normal. Talvez por isso mesmo, porque o inesperado intensifica sempre a dor, o impacto foi muito maior.

Quando o desastre teve início, o Jardineiro já estava há duas horas na estufa, a observar cada uma das suas plantas. Nesse dia, sentia-se especialmente feliz porque uma das variedades mais delicadas estava a florescer. Ainda era apenas um pequeno botão, de onde espreitava uma minúscula pétala vermelha, mas era vida, a sua vida.

Foi no preciso instante em que se aproximou para o acariciar, que tudo em volta estremeceu.

 

Uns segundos antes de aquela pétala morrer e, com ela, o Jardineiro, o Mãozinhas encontrava-se em cima de um pequeno escadote. Estava na sala de comunicações, a tentar reparar uma ligação elétrica que andava a falhar há dias. Já encontrara o ponto exato da avaria.

Eram essas pequenas tarefas rotineiras que mais o ajudavam a distrair-se do futuro, a concentrar-se em algo alheio à realidade diária que o rodeava.

Estava a pôr a chave de fendas entre os dentes, para apertar uma pequena peça manualmente, quando um forte abanão o fez perder o equilíbrio.

 

Uns segundos antes de o Mãozinhas, o escadote e a chave de fendas que tinha presa entre os lábios caírem no chão, Frank encontrava-se deitado na cama, no seu quarto, o mais afastado da Sala Comum.

A sua cabeça era um campo de batalha numa guerra esgotante, a de um homem que tinha de se autocensurar todos os dias. Desde que Terra nascera, mal dormia. Passava as noites a tentar enterrar a realidade, que lhe lembrava que aquele bebé havia de crescer.

Quando fora escolhido como um dos eleitos do concurso, pensou que ali, naquele planeta, poderia estar a salvo das tentações, poderia livrar-se dos vermes que lhe infetavam cada pensamento. No entanto, acontecera precisamente o contrário: a tentação estaria sempre com ele, a poucos metros de distância.

Um grande estremecimento fê-lo levantar-se de repente e olhar pela janela. Foi o primeiro a avistar o fim.

 

Poucos minutos antes de Frank ver, através de um vidro, um torvelinho de pó negro e medo vir na sua direção, Miss encontrava-se de pé no seu quarto. Havia algum tempo que se apercebera de que o número de gostos que recebia era muito superior quando aparecia numa fotografia com Terra; em contrapartida, quando a menina não estava… Por essa altura, aproveitando a solidão do quarto, estava prestes a tirar uma selfie praticamente despida: uma pequena tanga branca era tudo o que trazia vestido. Com uma das mãos, a direita, segurava o telemóvel; com a esquerda, tapava estrategicamente o peito. Foi precisamente depois de premir o botão que captou a fotografia, que um estremecimento a arremessou contra o chão. Gritou.

 

Uns minutos antes de o grito de Miss atravessar o corredor, a Doutora estava a trabalhar num inventário na salinha que fazia as vezes de enfermaria, do outro lado da Sala Comum. Dali, se espreitasse pela porta, poderia ver Andrea a brincar com Terra no sofá.

Para a Doutora, era essencial avaliar a quantidade exata que tinha de cada produto. Tinham de saber com precisão quanto material gastavam. Era a única maneira de se poder calcular aquilo de que iriam precisar quando chegassem os novos candidatos.

Foi no instante em que se preparava para pegar num frasquinho, que um estremecimento forte fez com que vários recipientes saltassem das prateleiras.

 

Uns segundos antes de estes recipientes de vidro se estilhaçarem no chão, Andrea brincava com Terra no sofá da Sala Comum. A menina tentava puxar-lhe os auriculares que trazia nos ouvidos; Andrea deslocava-os para a enganar. Terra ria-se, e, nesse dia, até Andrea se ria.

A menina conseguira pegar num dos auriculares com os dedos, quando um estremecimento forte a obrigou a soltá-los.

Andrea apertou Terra instintivamente. A pequena abriu as mãos e agarrou-se a ela com todas as forças. E desatou a chorar.

 

Cinco segundos antes de Andrea e Terra se terem abraçado, John encontrava-se de pé no pequeno ginásio, a levantar uma barra de cem quilos. Já a tinha quase acima da cabeça quando um estremecimento forte fez com que a largasse. A barra, com os respetivos pesos, caiu na vertical, diretamente sobre o seu pé esquerdo. Cravou-se nele como uma faca na manteiga.

E gritou.

E ouviu o barulho de vidro a partir-se.

E ouviu outro grito ao longe.

E ouviu Terra chorar.

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