Terra
Capítulo 151
Continuámos a circular sob um manto de chuva e vento, em direção a Reiquejavique. Era cedo, a madrugada ainda estava a dar as boas-vindas à manhã, mas ali já era dia, porque não chegara a ser noite.
Em fundo, Nica Libres at Dusk, de Ben Howard.
— Há um provérbio islandês sobre o clima — disse o meu irmão, a sorrir. — Se não gostas de como está o tempo, espera uns minutos.
Sorri-lhe também, enquanto olhava para o céu de uma noite com luz.
Aproximávamo-nos de Reiquejavique.
— Onde combinaste com o teu amigo? — perguntei.
— Não combinei em Reiquejavique, combinei noutro sítio, mas um pouco mais tarde. Queria aproveitar o facto de ainda ser cedo, para te levar a um lugar muito especial.
Deixámos a capital para trás e continuámos a percorrer uma estrada que tinha cada vez menos trânsito. Em volta, a densidade populacional também começou a diminuir: ao longe, viam-se apenas umas quantas casas disseminadas.
— Algumas dessas casas que aí vês são quintas, mas quintas muito especiais, de cavalos.
— De cavalos? — perguntei, surpreendida.
— Sim, mas são cavalos particulares: o cavalo islandês. Na verdade, tem qualidades únicas. Ao que parece, para se preservar a sua pureza, se, por algum motivo, um exemplar sair da ilha, já não pode voltar a entrar.
Abandonámos a estrada principal e desviámo-nos em direção a um lugar que, segundo as tabuletas, se chama PINGVELLIR.
Não nos cruzámos com um veículo sequer.
Passados alguns minutos, um grande lago que começou a divisar-se diante de nós.
— É lindo… — sussurrei.
— É o maior lago da Islândia.
Depois de contornarmos, durante um bom bocado, aquele espelho do céu, chegámos a um parque de estacionamento, onde deparámos com um espetáculo grotesco: um muro de autocarros mal deixava ver a paisagem. Hordas de turistas saíam dos veículos. Após vários minutos numa fila, conseguimos atravessar aquele caos e estacionar o todo-o-terreno na berma.
— Tanta gente! É sempre assim? — perguntei, surpreendida.
— Dantes, não era — respondeu, com um ar triste. — Há alguns anos, quando aqui vim pela primeira vez, podias encontrar turistas, claro, mas eram de outro género. Vinham tirar fotografias, passear, sentir a Natureza. Sabiam que tinham chegado a um lugar que deviam respeitar. Nada que ver com o que se passa agora.
— E onde estamos? — perguntei, enquanto avançávamos por entre a multidão.
— No vale de Pingvellir. Dizem que é a ferida aberta da qual nasceu a Islândia. É neste ponto exato que as placas tectónicas da América do Norte e da Eurásia se encontram. Dentro de um instante, vamos passar precisamente por uma dessas falhas. Trata-se de algo único. Mas, além da questão geológica, trouxe-te aqui por outro motivo.
Deixámos para trás o centro turístico e começámos a descer por um caminho que servia de passagem entre duas rochas.
— Neste mesmo instante, estamos a caminhar pelo ponto em que os dois continentes se separam — disse o meu irmão, enquanto avançávamos juntamente com uma multidão considerável.
Poucos metros adiante, deu-me a mão e desviámo-nos do caminho. Apesar dos anos decorridos, apesar das feridas, das repreensões e das ausências, apesar de tudo isso, notei o mesmo toque da infância. Apertei-lhe a mão.
Chegámos a uma pequena ponte que levava a umas bancadas de madeira. Encontrava-se ali um grande mastro com uma bandeira da Islândia. As pessoas subiam, desciam, saltavam por todos os lados.
— Dizem que os víquingues fundaram aqui o primeiro parlamento do mundo. Os representantes dos vários clãs que habitavam a ilha reuniam-se neste lugar uma vez por ano, no verão, para discutirem diversos assuntos: aprovavam-se leis, realizavam-se julgamentos e também se celebravam casamentos e alianças entre clãs. Dizia-se que o eco da escarpa permitia aos oradores amplificar a voz e chegar a todos os presentes.
»Nunca houve um edifício igual. Vinham pessoas de toda a ilha e, simplesmente, sentavam-se à volta daquilo a que chamaram a Rocha da Lei. Tudo o que se dissesse no parlamento deveria ser acatado. Com efeito, a independência da ilha também foi aqui decretada, em 1944. Toda a zona se enchia de vida e atividade comercial, não apenas por causa do acontecimento, mas porque era o melhor sítio para ficar a par do que se passava no resto da ilha.
— Como sabes tanto acerca do assunto? — perguntei, enquanto voltava a sentir um orgulho de irmã.
— Bem, por curiosidade e porque mo explicaram quando estiveram a estudar Constituições para Marte, no âmbito do concurso. Basearam-se, em grande parte, na islandesa.
Mantivemo-nos em silêncio durante algum tempo, exatamente o contrário do que se passava à nossa volta: dois turistas que não paravam de gritar acabavam de atirar dois sacos de batatas fritas vazios para o chão; uma criança estava encarrapitada no mastro da bandeira; dois jovens raspavam com uma faca o encosto de uma das bancadas…
Olhei com tristeza para a praga em que nos tínhamos transformado, e ali, naquele lugar, recordei as palavras que um dia o meu pai me disse: um vírus que vai acabar com a Terra, é isso que os seres humanos são.
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