Terra
Capítulo 115
O Mãozinhas regressou ao quarto a tremer de raiva, a pensar noutras formas de causar dano. E esse ódio acumulado na sua mente também se dirige ao militar. De onde desencantou a pistola? Dá um murro na cama, outro na porta, na parede… Magoa-se, mas não quer saber. O ódio anestesia-lhe a dor.
Deita-se na cama, pega no telemóvel e consulta as redes sociais; cada mensagem suscita nele mais ódio.
O Jardineiro também regressa ao seu quarto, mas com um espírito diferente. Sente-se mal por estar a acusar sem provas, por se deixar contagiar pela raiva alheia. Ele também cometeu erros. Decide esperar que tudo se esclareça. Prefere não consultar as redes sociais. Sabe que a multidão só olha numa direção, e nem sempre na mais acertada.
Veruca tentou bloquear a porta. Sentou-se na cama, nervosa. Percebe que não controla nada do que se passa à sua volta. Tem muito medo. E, neste momento, atribui ao pai a responsabilidade por a ter deixado ir para Marte. Continua sem perceber como lhe permitiu apresentar-se, como permitiu que fosse até ao fim… Porque não fez nada para a impedir?
Olha para o telemóvel e nem se interroga sobre o que dizem as redes sociais. Nasceu numa época em que a fronteira entre a realidade e a mentira depende apenas do número de gostos que uma mensagem tem, ou o contrário. Por isso, assume que Frank é culpado e que está ali, a apenas dois quartos de distância do seu.
*
Frank e o militar continuam juntos no quarto. O primeiro adormeceu; o segundo, habituado à vigília, receia que tudo se descontrole. É o único que desconfia do que poderá ter acontecido, é o único que tem a informação necessária para saber que há versões alternativas.
A Doutora permanece acordada junto a Miss, que, de tanto chorar, adormeceu. Compreende-a perfeitamente: passou por aquela situação várias vezes na vida. Conhece a dor que lhe percorre as entranhas, a dor que, como um vidro, dilacera os sentimentos, que atravessa a intimidade de forma cruel.
OceanofPDF.com