Terra

Eloy Moreno · Capítulo 171 de 205

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Terra

Capítulo 173

Embora não tivessem essa perceção, o tempo na colónia continuava a passar.

Todos os dias, o Jardineiro conseguia novas proezas com o seu trabalho, e, pela primeira vez, uma das suas plantas dava frutos: tinham crescido uns quantos tomates pequenos.

Por seu lado, o Mãozinhas continuava a encarregar-se da manutenção básica dos módulos. De vez em quando, colaborava com os dois astronautas da Centinel na montagem dos oito habitáculos adicionais, que serviriam para acolher os novos candidatos. Eram tarefas em que tanto John como Frank também participavam.

A Doutora encarregava-se de tudo o que se relacionava com a saúde das pessoas ali presentes; periodicamente, realizava check-ups para verificar se estava tudo bem. Era a responsável por administrar e manter o material médico.

Miss, por seu lado, reservava metade do seu tempo a cuidar de Terra e a outra metade a contar tudo nas redes sociais.

Andrea ocupava-se das comunicações e das questões informáticas. Quase sempre que o programa transmitia aquilo que se passava no seu quarto, estava agarrada ao computador. Aproveitava as poucas vezes que saía para brincar com Terra.

Era uma menina que não podia interagir com outras crianças, que não tinha muitas das comodidades de que uma criança deveria usufruir, mas que, apesar de tudo, continuava a crescer com alguma normalidade. E isso, ali, era muito.

A Doutora fazia o acompanhamento semanal de Terra, para verificar se tudo estava a correr bem. Foi depois de um desses exames que confirmou aquilo de que suspeitava há algum tempo.

Nesse dia, pegou na menina ao colo e dirigiu-se ao quarto de Miss.

— Passa-se alguma coisa? — perguntou a modelo, quando a viu aparecer com a filha.

— Não, não, nada. Acabei de lhe fazer a consulta semanal; está tudo bem. Mas já passou o tempo necessário para se poder concluir que a menina tem heterocromia total — disse.

Quando a informação chegou à Terra, milhões de pessoas fizeram os motores de busca ir abaixo para tentarem descobrir o que aquilo era.

— O quê? — respondeu Miss, angustiada, enquanto pegava na criança.

— Não te preocupes. A palavra assusta mais do que o seu significado. Vou dizer-te de outra maneira. Tem um olho de cada cor, e não me parece que vá mudar. Por vezes, como parece ser o caso, desenvolve-se pouco tempo depois do nascimento e, nesse caso, trata-se de algo conhecido por heterocromia congénita.

— Mas é perigoso? — perguntou Miss, apertando a filha nos braços.

— Perigoso? Não, não, talvez estranho. Segundo aquilo que investiguei, apenas um por cento da população apresenta esta característica. Mas não afeta a visão, de todo.

Nesse momento, as câmaras focaram uns olhos ligeiramente diferentes. Um tendia para o verde; o outro, para o azul.

— De certeza que, com o passar do tempo, as cores se hão de acentuar, mas não é certo, podem até ficar assim. Manter-me-ei vigilante, mas não há motivo para preocupações.

 

As semanas foram-se avolumando, até se transformarem em meses. As redes sociais continuaram a funcionar como tutores improvisados. Toda a gente dava a sua opinião sobre como se deveria cuidar daquela criança.

As audiências foram caindo à medida que o interesse inicial se foi transformando em aborrecimento. Apareceram outros programas capazes de cativar as pessoas, fartas de ver as mesmas pessoas a fazer a mesma coisa, dia após dia.

Mesmo assim, o concurso ainda contava com milhões de espectadores fiéis.

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