Terra
Capítulo 189
Nesse momento exato, o filme parou, e apareceu o rosto do meu pai.
«Que daríamos para poder entrar naquele bote? Que preço atribuiríamos a algo semelhante? Um milhão? Dez? Cem? Quanto estaríamos dispostos a pagar para chegar àquela ilha?
»Eu, vendo essa ilha, vendo a possibilidade de, mesmo rodeado de morte, sobreviver.
»Quando o barco está a afundar-se, já não é a altura certa para procurar culpados, é o momento de procurar soluções. E, agora, o nosso barco está a afundar-se, o barco que usámos durante séculos, aquele que amámos, mas que, no fim, por falta de manutenção, por cobiça, por ignorância, também destruímos.
»Já não há volta atrás. O nosso barco está a afundar-se, mas eu tenho uns quantos botes que podem salvar vidas. E você já comprou um lugar num deles. Ofereço-lhe, pelo menos, essa possibilidade.
»Bem-vindo à lista eXo.»
Depois desta última frase, a imagem do meu pai desapareceu do ecrã, dando início a uma sucessão de fotografias da Terra, com dados históricos de todo o tipo: temperatura, níveis médios da água do mar, espessura dos glaciares, frequência de terremotos…
Enquanto estas imagens nos atingiam, voltou a ouvir-se a voz do meu pai em fundo.
«Conhecem a história do lobo? Contaram-no-la tantas vezes, que pensámos que nunca haveria de acontecer. Mas a verdade, mesmo que a ignoremos, acaba por chegar.
»Um dos principais defeitos do ser humano é não ser capaz de pensar a longo prazo; preocupamo-nos apenas com o que se irá passar daqui a pouco tempo, amanhã, ou no dia seguinte, mas nunca além disso. Só nos preocupamos com os efeitos quando não há volta atrás. Então, sim, então, arrependemo-nos de tudo. O problema é que esse momento chega sempre tarde.
»Quanto tempo resta a este belo iate a que chamamos planeta? Talvez cinquenta ou cem anos, talvez um pouco mais, talvez um pouco menos. Sim, está a afundar-se, mas nem todos têm de morrer. Agora, tem a possibilidade de se salvar. Oferecemos-lhe essa hipótese.»
Apareceram no ecrã imagens de uma grande colónia que se estava a construir mesmo ao lado da Centinel. Dezenas de cápsulas, várias estufas, milhares de painéis solares…
«Apesar de tudo o que aconteceu, na Centinel, continuámos com o projeto original: construir uma grande colónia em Marte. Aprendemos muito com os erros, melhorámos os sistemas de segurança, introduzimos novos materiais de construção, aplicámos tecnologia de última geração nas unidades de energia e oxigénio.
Será complicado, sim, mas, de momento, foi a única ilha que encontrámos, e temos os botes para lá chegar.»
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