Terra
Capítulo 134
— Quando vi as imagens, soube que era ela. Uma mãe consegue reconhecer a filha, mesmo que esteja dentro de um fato de astronauta, mesmo que milhões de quilómetros a separem de si.
Suspirou, baixou os olhos e continuou a falar como se, ao soltar as palavras, estas magoassem menos.
— Quanto vi aquele corpo a caminhar em direção ao nada, fui assaltada pelo pânico. Estava sozinha em casa, não sabia o que fazer, a quem ligar, e comecei a gritar para um ecrã, sabendo que aquilo já se tinha passado. As imagens eram transmitidas com grande atraso, e, enquanto eu via a minha filha suicidar-se, ela já estava morta há muitos minutos…
Pude ver a expressão de pura dor no rosto daquela mulher.
— Nunca senti tamanha impotência na vida. Liguei ao meu marido, mas não atendeu. Estava a passar uns dias na Islândia. Ausentava-se de vez em quando, porque havia lá umas instalações. Quando consegui entrar em contacto com ele, já tudo acontecera.
Suspirou e ergueu a cabeça. Olhou para nós, mas sem nos ver, como se os seus olhos tivessem perdido o rumo.
— Vi-a tirá-lo, vi essa menina que estivera dentro de mim, essa menina que aprendera a andar comigo, essa vida… vi-a tirar o capacete, e juro-vos que nunca senti maior dor na minha vida. Era uma parte de mim que morria ali.
A mulher procurou a mão do meu irmão e apertou-a com todas as suas forças. Talvez os olhos lhe doessem tanto, que tentava que as lágrimas lhe saíssem de entre os dedos.
— E caiu… a minha menina caiu no chão, e eu caí com ela.
O meu irmão abraçou-a.
Mantiveram-se assim, no interior da dor, durante alguns minutos.
— Durante muito tempo, procurei culpados — continuou —, precisava de descarregar a minha raiva. De início, fi-lo com o meu marido. Ele deixara-a ir, era o responsável… mas depois percebi que, se havia alguém a quem a Vera dava ouvidos, eram as redes sociais. Vivia por e para elas… Foram essas redes que levaram a minha filha e que, depois, levaram também o meu marido.
»A morte da Vera foi a morte do nosso casamento. É verdade que não éramos o casal ideal, mas, pelo menos, suportávamo-nos, convivíamos… no entanto, quando a única coisa que nos ligava desapareceu, toda a minha dor se transformou em ódio, que caiu sobre ele.
»Depois, veio o resto: os grafítis na nossa casa, os insultos, as ameaças… A multidão procurava um culpado: o meu marido. Todos os dias, recebia milhares de mensagens de ódio, de morte…
»Decidiu partir definitivamente para a Islândia, afastar-se de tudo, procurar um sítio onde pudesse passar despercebido.
— E não voltaram a ver-se? — perguntou o meu irmão.
— Vinha de vez em quando, mas depois surgiram aqueles rumores, as fotografias onde ele aparecia com todo o tipo de mulheres, uns dias com uma loura, outros com uma morena… Todas mais bonitas e, sobretudo, mais novas do que eu. Pensei que tinha perdido a cabeça, que não estava bem mentalmente, por isso, desconfiei de que poderia ter qualquer coisa.
— Refere-se ao acidente — perguntei.
— Não foi um acidente. Ele era um dos fundadores do projeto e sabia demasiado, mas tornara-se instável, uma pessoa demasiado perigosa. Tinham de o afastar do caminho.
— Mas como pode ter a certeza de que não foi um acidente? Talvez estivesse embriagado, talvez tivesse andado na borga…
Inspirou profundamente.
— Sei, porque, nesse dia, tinha previsto fazer uma viagem muito especial. Ia a caminho do aeroporto de Keflavik, para apanhar uma avioneta privada. E sabem para onde ia?
— Para onde?
— Para cá. Vinha ver-me.
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