Terra
Capítulo 45
O tema da segurança fora um dos aspetos mais importantes nas negociações preparatórias. Cientistas, advogados, filósofos e juízes tinham passado meses a discutir como se aplicaria a lei e a justiça em Marte.
Tinham-se revisto várias constituições, entre elas as dos Estados Unidos, da Islândia, do Japão… e também a de um ou outro país da Europa, com o objetivo de redigir uma que servisse para qualquer colónia fora da Terra, tanto na Lua, em Marte, como em qualquer outro planeta que se pudesse alcançar no futuro.
Começar uma sociedade de raiz podia até ser uma ideia deveras imaginativa, mas, segundo diziam os especialistas, o holocausto, os gulag soviéticos ou qualquer guerra fratricida testemunhavam as atrocidades de que os seres humanos eram mesmo capazes quando a pessoa errada estava no poder. Havia a possibilidade de todos morrerem antes mesmo de a população começar a crescer.
Um dos comentários mais partilhados nas redes sociais durante esse período foi, numa entrevista, o de um dos gurus tecnológicos mais ricos e reconhecidos:
Se o ser humano não consegue chegar a um consenso numa pequena comunidade de vizinhos,
o que espera que aconteça num lugar sem forças policiais e sem ninguém que aplique a justiça? As violações, o assassinato, as agressões… estão garantidos, impor-se-á a lei do mais forte e, por fim, a destruição da colónia. Uma colónia espacial é um ambiente propenso a tiranias. Para dar um exemplo, se alguém conseguir ter o controlo do oxigénio, dominará toda a população.
Estas palavras afetaram um público que, até esse momento, via o concurso como um simples divertimento, como se tudo o que pudesse acontecer em Marte fosse um jogo.
O grupo de especialistas começou a trabalhar para redigir uma Constituição que, por consenso alargado, fosse aceite para o novo território. Decidiram tomar como exemplo a Constituição islandesa, pois, mesmo estando na Terra, tratava-se de um território isolado do resto do mundo, onde a população é relativamente reduzida e as coisas parecem correr bastante bem.
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