Terra

Eloy Moreno · Capítulo 124 de 205

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Terra

Capítulo 124

Mais um aeroporto. Mais uma viagem.

Mais um estado diferente. Mais um carro de aluguer.

E, entre os quilómetros…

— Como se volta a viver depois de nos acontecer uma coisa destas? — perguntei ao meu irmão.

— Não sei, não sei…

— Conhecia-la bem?

— Sim, bastante. Eu e o pai íamos muitas vezes a casa dela. Foi quando tu já não estavas… — O meu irmão parou de falar, percebeu que tinha aflorado um ponto sensível.

O silêncio entre ambos adensou-se. Um silêncio que me ajudou a olhar para os meus atos sob outra perspetiva. Talvez tenha sido injusta, demasiado egoísta. Castiguei o meu irmão, quando, na realidade, só queria fugir do meu pai.

«E, papá, sabes porque quis fugir de ti? Porque me habituaste aos teus beijos, às tuas cócegas, às tuas brincadeiras… Porque, mal me vias, me pegavas ao colo e eu voava nos teus braços, e fazias-me sentir capaz de tudo, capaz de derrotar qualquer ser maléfico, capaz de salvar o mundo. De repente, tudo isso acabou. Foste-te esquecendo de mim: a cada dia que passava, os teus beijos eram mais pequenos; as tuas cócegas mal me faziam rir; e os abraços só chegavam na véspera das tuas ausências, que duravam cada vez mais e te levavam para cada vez mais longe.»

— E conheceste a filha? — disse, voltando à conversa.

— A Veruca? Sim. Às vezes, vinha ao escritório. O pai adorava-a. Sabes que o nascimento dela foi quase um milagre?

— Porquê? — perguntei.

— Os pais não podiam ter filhos. Eram um dos casais mais ricos do mundo e, mesmo assim, não podiam ter filhos. Fizeram todos os tratamentos possíveis, até que, por fim, conseguiram. Por isso, a Veruca era tão importante para eles, tão mimada.

— O que não compreendo é por que motivo o pai a deixou ir. Foi praticamente uma condenação à morte.

— Não sei, não sei. Sempre pensei que haveria algum plano B, que, de alguma forma, ele sabia que, no futuro, poderia trazê-la de volta, que poderia tirá-la de lá com alguma nave espacial de última geração, algum projeto secreto… Se calhar, só queria dar-lhe uma lição.

— Talvez hoje fiquemos a saber.

— Talvez…

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