Terra

Eloy Moreno · Capítulo 136 de 205

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Terra

Capítulo 136

— Para cá?

— Sim. Ligou-me no dia anterior. Foi muito estranho, porque não sabia nada dele há semanas. A única coisa que tinha ouvido eram rumores de que andava bêbedo pelos pubs, acompanhado de raparigas novas, de que, uma ou outra vez, o tinham visto a dormir na rua. Por isso, estranhei tanto quando recebi a sua chamada. Disse que vinha ver-me, que tinha de me contar uma coisa muito importante.

— E o que era?

— Segundo as notícias que me chegaram, parece que, ultimamente, já não andava com várias mulheres, mas sempre com a mesma. Talvez se tivesse apaixonado e me viesse pedir o divórcio. Acho que é a explicação mais provável. Talvez o tenham matado por isso.

— Por lhe vir pedir o divórcio?

— Não, não por mo pedir, mas porque, ao fazê-lo, acabaríamos por discutir, disso tenho a certeza. E gritaríamos e deitaríamos muitas coisas à cara um do outro e… quem sabe… em momentos de muita tensão, um homem que não estava muito equilibrado podia dizer coisas que não devia. Mas não sei, não liguem ao que estou a dizer. Não chegou ao aeroporto, pelo que nunca saberemos.

A mulher olhou-me fixamente.

— Alguns meios de comunicação tentaram camuflar o caso, como se tivesse sido suicídio. Demasiada pressão, sentimento de culpa… mentiras de jornalistas comprados pelo sistema. Sei que o mataram.

Parou de falar. Talvez por já não ter mais nada a acrescentar.

Percebi que, depois de duas horas de conversa, não tínhamos avançado nem um pouco relativamente à chave seguinte.

— Obrigado — disse o meu irmão—, obrigado por nos contar tudo isto. Não era necessário…

— Na verdade, para mim, era. Quem tem de agradecer sou eu. Às vezes, sabe bem ouvirem-nos, saber a verdade, mesmo que não corresponda àquilo que aparece nas notícias. Olhem em volta. O que veem?

Eu e o meu irmão ficámos sem saber o que dizer.

— É só dinheiro, muito dinheiro, mas não há vida, não há nada por qual valha a pena levantar-me todos os dias… Já não há nada.

Fez-se silêncio. Queria perguntar-lhe algo que tivesse que ver com as chaves, mas não sabia se era o momento certo. Ela foi mais direta.

— Não me parece que vos tenha conseguido ajudar muito no vosso jogo. Lamento.

— Não se preocupe — respondeu o meu irmão—, mas deve haver alguma coisa. Se o papá nos conduziu aqui, deve haver uma chave, algures. De certeza que não se lembra de nenhuma com um trevo?

— Uma chave com um trevo? Não.

— Lembra-se se ele tinha um cofre em casa, algum lugar secreto?

— Sim, tinha vários, mas todos com combinações… Se quiserem…

— Não, não me parece que seja por aí — disse o meu irmão.

 

Bebemos chá com bolachas e acabámos por ficar para jantar. Ela precisava de companhia. «Há muito tempo que não tenho convidados em casa», disse.

Foi ali, ao jantar, que, finalmente, surgiu a pista.

— E sabe-se alguma coisa dessa casa da Islândia onde o seu marido vivia? Foi a senhora que ficou com ela? — perguntou o meu irmão, enquanto nos serviam a sobremesa.

Nesse momento, a mulher ficou a olhar para o vazio. Demorou uns segundos a falar.

— Sim… Há uma chave. Tinha-me esquecido completamente.

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