Terra
Capítulo 34
E aquele «como estás?» faz vacilar a irmã, que há demasiado tempo espera a pergunta.
Segura o telemóvel, sem saber o que fazer de seguida: dizer a verdade ou continuar com a conversa, fingindo não ter ouvido a pergunta.
É o irmão que volta a tomar a iniciativa.
— Nel, tive saudades tuas… — confessa ele, a quem também custa muito dizer o que realmente sente, um homem que tem tanto medo de falar como de continuar calado.
A mulher deixa o telemóvel em cima do sofá e senta-se no chão, com a cabeça entre as pernas, tentando que as recordações mais dolorosas não sejam as que nunca teve.
O homem — embora não o veja — sente a dor do outro lado da conversa, sabe que ela está ali, a ouvir sem querer, mas sem poder deixar de o fazer.
— Nel… — continua, consciente de que, a partir desse momento, qualquer uma das suas palavras poderá magoar —, não sei o que o pai queria com isto, não sei qual era a sua intenção. Mas, se tiver a possibilidade de me aproximar da minha irmã, é o que tentarei fazer. Se isto pode fazer com que, finalmente, volte a abraçar a miúda que queria salvar o mundo com umas botas e uma capa, alinho.
Silêncio.
Mas ele sabe que, no fundo daquele silêncio, ela o ouve, e, por isso, embora até o medo o magoe, vai continuar.
— Gostava de te ver, de te falar de cada momento em que estive prestes a ligar-te e não o fiz, de todas as fotografias em que te procurei e não te encontrei, de todas as recordações tuas que não tenho…
A mulher permanece no chão, a brincar com o anel entre as mãos, calada, sem ser capaz de dizer nada, enquanto o irmão continua a libertar-se de todas as palavras que, durante anos, puseram uma âncora no seu coração.
— Nel, sabes que um dia teremos de voltar a falar… Depois da história da mãe… — Nesse momento, um homem que está há uma vida inteira à espera desta conversa desfaz-se por dentro e começa também a chorar; lágrimas que atravessam o telefone, o tempo e a distância.— Nelly… apesar de tudo, apesar da distância, da vida, do medo… apesar de tudo, nunca deixei de te amar.
Permanece o silêncio entre dois irmãos que deixaram de brincar juntos num rio, para terem um oceano de distância entre si.
— Nelly… — suplica —, diz qualquer coisa… diz-me que estás aí, que estás a ouvir…
— Lamento… — responde ela, enquanto aperta o anel com força na mão —, agora, não posso falar. Lamento…
— Okay, espera, espera! — insiste ele, como se o telefone fosse o cordão umbilical que os une, como se interromper a conversa significasse uma despedida eterna. — Antes de desligares, dá-me ao menos uma esperança. Promete-me que voltaremos a ver-nos.
Ambos sabem o que significa uma promessa na sua família.
— Prometo… — diz ela, enquanto prime o botão do telemóvel para pôr fim à conversa.
E ele respira, tranquilo.
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