Terra
Capítulo 67
— A que te referes? — perguntei ao meu irmão.
— À contabilidade! A contabilidade da empresa. Crianças com dinheiro, de certeza que é isso. Além do mais, bem me parecia que o nome não me era estranho.
Eu olhava-o sem saber muito bem de que estava a falar, enquanto ele, com um gesto da mão, me pedia que esperasse. Continuou o que estava a fazer no computador, enquanto eu estava ali, ao seu lado, no mesmo sofá que tínhamos partilhado anos antes, a olhar para uma lareira que não estava acesa, a tentar perceber por onde fugira o carinho.
Passaram-se apenas alguns minutos.
— Está aqui! — exclamou.
— O quê?
— Bem me parecia que havia algo que me era familiar. Ora, é impossível consultar todas as transações da empresa de um momento para o outro, mas há aqui algumas que são recorrentes, ano após ano, por isso, o apelido não me era estranho.
— Rendimentos recorrentes?
— Sim, vais ver. A empresa tem uma lista de várias pessoas, na sua maioria atores amadores, que pode chamar no caso de ser necessário um novo concorrente ou algum tipo de falso testemunho, por vezes, até para notícias que inventávamos.
Continuei a olhar para ele, enquanto me explicava, e ali, na excitação dos seus olhos, voltei a ver a minha infância.
— É complicado acontecerem sempre tantas coisas como parece. Por exemplo, imagina um cão que morde uma mulher, a quem amputam o braço. Nesse mesmo dia, andávamos à procura de atores e de cães parecidos, para inventarmos uma notícia de que outro cão tinha mordido outra pessoa, com mais raiva, diante dos filhos, no parque… ou coisa do género. O que queríamos era reduzir as audiências relacionadas com a notícia verdadeira e desviá-las para nós. Outras vezes, podíamos fazer um programa especial de pessoas a quem tivesse morrido o cão. Então, chamávamos muitos atores. Ora, deixávamos esses atores de sobreaviso, caso fosse necessário, e pagávamos qualquer coisa a alguns, todos os meses, para que estivessem sempre a postos.
— Como uma taxa fixa para pessoas…
— Isso mesmo… — Ficou em silêncio por alguns instantes. — E encontrei o apelido… Há apenas um, pelo que não restam dúvidas, mas há duas coisas estranhas.
— O quê?
— A primeira é a quantia. É elevada, muito elevada: transferem-lhe todos os meses dois mil dólares. Algo muito raro. Demasiado dinheiro só para ter alguém como suplente.
— E a segunda?
— Estás a ver este código azul? Este M18 significa que se paga à mãe ou ao pai, ou ao responsável legal, mas o dinheiro, na verdade, vai para o menor. Isto confirma que é uma criança, e, claro, se já me parecia muito para um adulto, para uma criança, então, parece-me disparatado, sobretudo porque quase nunca trabalhávamos com menores. Demasiados problemas legais.
Ficámos em silêncio durante alguns segundos.
— Mas o mais curioso de tudo é o sítio onde esta criança vive — disse.
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