Terra

Eloy Moreno · Capítulo 190 de 205

Páginas do PDF

Terra

Capítulo 193

Saímos daquele museu em silêncio, talvez porque, quando alguém resolve um mistério, percebe que é muito mais emocionante tentar resolvê-lo do que saber a solução.

— O camião leva-vos de volta ao hotel. Têm uma mesa reservada para almoçarem por lá — disse-nos Jónas, enquanto se despedia de nós à porta do museu.

Entrámos no veículo e sentámo-nos lá ao fundo.

Voltámos a atravessar o manto branco que, como nos explicou Jónas, todos os anos tinha menos gelo e mais terra.

— Nel… — ousou dizer o meu irmão—, o que vais fazer com tudo isto? Vais publicar?

— Que provas tenho? — respondi-lhe, assumindo que o meu pai ganhara. — Um filme que não poderei revelar ter visto, uma conversa que Jónas recusará ter tido e um anel cuja utilidade não consigo provar. Estou exatamente no mesmo ponto em que me encontrava quando aqui cheguei… Mas continua a não ser justo. Não pode ser o dinheiro a decidir…

— Nel… mas isso já é o que se passa. Acontece a cada instante. Confrontadas com a mesma doença, por exemplo, há pessoas que podem recorrer a um determinado tratamento e que se curam e outras que não podem e morrem. Acontece todos os dias.

Continuámos o resto da viagem em silêncio.

Pus os auriculares. Estava ouvir a magnífica composição Selfish Art, de Noah Gundersen.

Foi enquanto escutava esta canção, que chegaram mais duas mensagens do meu contacto em Reiquejavique. A informação parecia credível.

Chegámos de novo a Húsafell.

Tinham-nos reservado uma mesa junto a uma grande janela panorâmica. A vista era espetacular.

Pedimos e brindámos com vinho.

— À nossa — disse o meu irmão.

— À nossa — respondi, olhando-o diretamente.

Bebemos e ficámos durante alguns instantes sem falar.

— E agora? — perguntei.

— E agora o quê? — quis saber, olhando-me, surpreendido. — Agora, temos de continuar o jogo.

— Para quê?

— Para quê?! Porque há aqui mais qualquer coisa. Isto só explica a história do anel e da lista. Ou será que…?

De repente, o seu semblante mudou, como quem descobre uma festa-surpresa antes do tempo.

— Ou será que o teu desejo já se cumpriu? Acabámos o jogo? Não é possível. Não é possível — repetia para consigo. — Quando aconteceu aquela história toda na cabana, estes anéis nem sequer existiam. Não é possível que o teu desejo esteja relacionado com tudo o que vimos naquele museu…

— Não, o meu desejo não se cumpriu.

O meu irmão não insistiu. E poderia tê-lo feito, porque, afinal, estávamos a fazer tudo aquilo por mim, pelo meu desejo. Mas ele também sabia quão importantes as promessas eram na nossa família, e eu, naquele dia, naquela cabana, dei a minha palavra ao meu pai: aceitei jogar, desde que nunca contasse o meu desejo a ninguém, e, na minha família, as promessas cumpriam-se.

OceanofPDF.com