Terra
Capítulo 40
Saí de madrugada, quando as estradas ainda estavam vazias. Esperava-me uma viagem de oito horas até alcançar de novo o meu passado, o lugar a que havia anos não regressava.
No dia que se seguiu ao telefonema, quando o meu corpo e, acima de tudo, a minha mente já estavam mais aquietados, voltei a falar com o meu irmão. Foi uma conversa curta, como a de dois desconhecidos que entram em contacto só para confirmar o local e a hora de um encontro, mais nada.
Conduzi em silêncio, recordando, com mais intensidade do que nunca, o meu pai, e logo agora, que já ali não estava. Pensando não em quando começara a odiá-lo, mas em quando deixara de o amar.
Depois de várias paragens e centenas de canções, cheguei a um cruzamento: o mesmo cruzamento de sempre. Tudo parecia novo, diferente, mas, ainda assim, senti que tinha chegado a um lugar familiar. Detive-me por uns instantes e virei para a cidade que me viu crescer.
À medida que me aproximava, ia-me apercebendo de que ela também tinha crescido: um polígono industrial com várias fábricas deu-me as boas-vindas. Onde antes havia apenas plantações de cereais, existia agora indústria e cimento.
Avancei cerca de três quilómetros e, precisamente na entrada da povoação, surpreendeu-me ver uma estátua de quase dois metros que representava um homem a olhar para o céu; aquele homem era o meu pai.
Meti pela rua principal, bastante mais longa do que nas minhas recordações de infância, mas na qual consegui reconhecer alguns estabelecimentos, sobretudo um, um muito especial.
Quando, no telefonema anterior, o meu irmão me indicou o lugar onde nos poderíamos encontrar, pensei que estava a fazer troça de mim, que era impossível aquele café ainda estar aberto, depois de tantos anos. Mas ali estava, o mesmo café em que o nosso pai nos levava a comer gelados todas as sextas-feiras, quando saíamos da escola. Aquele era o nosso refúgio, o lugar feliz onde começava o fim de semana. Era ali que contávamos como correra o dia, era ali que falávamos das pequenas grandes coisas das crianças… e era ali também que nos explicava as suas ideias novas para programas e concursos.
Estacionei a alguns metros e fiquei dentro do carro. Fechei os olhos. Imaginei-me de novo a percorrer aquelas ruas com o meu irmão.
Nesse momento, estava a passar na rádio o tema Appointments, de Julien Baker. Foi precisamente o verso «maybe it’s all gonna turn out alright», «talvez tudo corra bem», que me convenceu a sair.
Dirigi-me ao café. Respirei profundamente, abri a porta e entrei.
E vi-o.
Sim, reconheci-o. É verdade que, durante a viagem, pensara nele, na minha infância, no nosso primeiro beijo, naquele coração que desenhámos numa árvore. Que teria sido feito da sua vida? Continuaria naquela povoação? O que nunca imaginei foi que o encontraria ali, no mesmo café em que nos apaixonámos, a gerir o negócio do pai.
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