Terra

Eloy Moreno · Capítulo 179 de 205

Páginas do PDF

Terra

Capítulo 182

— Esta não é a chave? Mas como? — perguntou o meu irmão.

— Não, não é essa.

— Então? — questionei eu.

— Mas o facto de essa não ser a chave não significa que não a tenham convosco — disse, olhando-me para a mão.

Naquele momento, o meu coração deu um salto. Percebi que trazia a chave comigo, num dos meus dedos. Lembrei-me então das palavras do amigo do meu irmão. Para aceder, bastava encostar a palma da mão à porta.

Confesso que fiquei nervosa, muito mais do que deveria ter ficado. Durante toda a minha vida, tivera essa mesma sensação em várias ocasiões: quando conseguia uma prova irrefutável que me permitia provar a culpa do político corrupto; quando, depois de meses de investigação, a polícia me ligava para me dar razão; ou quando uma das minhas investigações servia para evitar que se cometesse um delito.

Aproximei-me, encostei a mão, e a porta abriu-se. O meu irmão olhou para mim, surpreendido. Jónas sorriu.

Entrámos naquilo que parecia uma pequena sala de cinema: havia cerca de vinte lugares, um grande ecrã e, do lado direito, um minibar.

— Uma sala de cinema? — perguntei.

— Sim, é verdade. Esse anel dá-lhe o direito de ver um filme — disse-nos Jónas, enquanto, com as mãos, nos convidava a sentar.

Acho que, nesse momento, tanto eu como o meu irmão pensámos o mesmo. Cem milhões para assistir a uma morte em exclusivo? Cem milhões para assistir aos últimos momentos das oito pessoas mais famosas do planeta? Cem milhões para assistir à morte de uma criança?

Mas também é verdade que, em toda aquela história, havia qualquer coisa que não encaixava. Durante os meus anos de investigação, vira gravações de todo o tipo, das que se comercializam na Internet profunda: pais que gravavam as próprias filhas a ser violadas por estranhos; homens que realizavam atos semelhantes com crianças pequenas; máfias que faziam vídeos em que os vagabundos lutavam até à morte… Mas nenhum dos consumidores dessa crueldade correspondia aos perfis das celebridades que o amigo do meu irmão vira entrar naquela sala. Havia algo estranho ali, muito estranho.

Eu e o meu irmão sentámo-nos, um ao lado do outro.

Pegou-me na mão, apertei-lhe a dele.

E, embora não o tenha dito, gostava de ter ouvido o «Calma, está tudo bem» que me sussurrara tantos anos antes, naquela cabana.

Apagaram-se as luzes, e o filme começou.

OceanofPDF.com