Terra

Eloy Moreno · Capítulo 168 de 205

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Terra

Capítulo 170

Apenas meia hora depois, deixámos a Ring Road e seguimos por um pequeno caminho que nos conduzia diretamente ao mar. Vimos uma tabuleta com a indicação: REYNISFJARA.

Chegámos ao parque de estacionamento, e, mal saímos do carro, a força do vento fustigou os nossos corpos. Chovia mansamente havia alguns minutos.

Caminhámos por um caminho bem delimitado, que desembocava numa praia a preto e branco: as ondas cuspiam espuma sobre um tapete cor de carvão.

— Dizem que é uma das praias mais belas do mundo — comentou o meu irmão.

Permanecemos ali durante alguns minutos, de pé, um ao lado do outro, a observar um céu que se confundia com o mar, perguntando-nos qual dos dois perdera a cor primeiro.

O vento soprava cada vez com mais força.

— Anda, vamos até ali — disse-me.

Começámos a caminhar à beira-mar, em direção àquilo que parecia ser uma gruta. Não havia praticamente ninguém: um casal ao longe e um homem que tentava manter o tripé da câmara em equilíbrio.

— O que é aquilo? — perguntei ao meu irmão, ao ver três rochas enormes que pareciam nascer do mar.

— O que preferes? A verdade ou a lenda? — perguntou-me, por sua vez, a sorrir.

— A lenda… — respondi-lhe eu, enquanto ele me estreitava contra si.

Abraçou-me.

— Conta-se que, nesta zona, viviam três trolls que se entretinham a afundar barcos. Talvez porque não queriam que ninguém os incomodasse, porque não queriam visitantes.

O vento arrastava-me cada vez mais contra ele.

— Habitualmente, eram barcos pequenos, os que chegavam, barcos que um único troll conseguia afundar com facilidade. Mas, certa vez, aproximou-se um barco grande, muito mais resistente do que os anteriores. Nessa noite, os três trolls tiveram de unir esforços para o conseguir destruir. Mesmo assim, aquele barco era forte, muito forte. O esforço prolongou-se durante horas, tantas que, quando se deram conta, já amanhecia… E sabes o que acontece a um troll quando é atingido pela luz do Sol? — perguntou-me, estreitando-me entre os braços.

— Transforma-se em pedra.

— Exato. E ali estão eles… — Sorriu, apertando-me o corpo contra o seu. — Dizem que estas três rochas enormes são esses três trolls. Sei que têm nome, mas, neste momento, não me consigo lembrar deles.

As gotas caíam-nos desordenadamente sobre o corpo, à mercê do vento que as fazia dançar à nossa volta.

Aproximámo-nos de uma estranha parede formada por colunas de basalto. Encontrámos um pequeno recanto em que nos protegemos do vento.

Nesse momento, recbi uma mensagem no telemóvel, e outra, e mais uma. Três mensagens quebraram o silêncio.

Tirei o telefone do bolso, li e sorri. Cada um daqueles dados valia a pena.

— O que se passa? — perguntou-me.

— Eu também tenho os meus contactos — afirmei, a sorrir. — Quando souber algo mais concreto, digo-te.

Estivemos ali durante muitos minutos, cada um de nós absorto nos seus pensamentos, um ao lado do outro, tão perto, tão irmãos.

Começou a chover com mais intensidade. O vento forte transformava as gotas em balas que nos atingiam os rostos. Decidimos que estava na altura de voltar.

Fomos a correr para o parque de estacionamento.

Entrámos no todo-o-terreno, ligámos o ar quente, e a rádio presenteou-nos com Dermot Kennedy, em A Closeness. O primeiro verso da canção fê-lo sorrir: «Keeping her bright eyes focused on the coastline…»

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