Terra

Eloy Moreno · Capítulo 141 de 205

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Terra

Capítulo 142

Era uma tarde normal de um dia normal, no mesmo lugar de sempre. Cada um dos elementos da colónia se ocupava das suas tarefas, quando uma das câmaras detetou Miss, que se aproximou da Doutora para lhe dizer qualquer coisa em voz baixa.

— Tenho de falar contigo — sussurra-lhe ao ouvido, ao mesmo tempo que lhe pega na mão.

— O que se passa? — responde a Doutora, assustada.

— Aqui não. Vamos para o meu quarto.

Nesse mesmo instante, as câmaras de movimento do corredor começam a ativar-se, uma após outra, e, manipuladas, essas imagens passam para o primeiro canal da estação.

As redes sociais também se mobilizam. As audiências aumentam.

As duas mulheres dirigem-se ao quarto de Miss e fecham a porta, mais por hábito do que por conveniência, pois as câmaras e os microfones, lá dentro, continuam a gravar. Sentam-se uma ao lado da outra na cama.

Miss tenta falar, mas, antes de dizer uma palavra sequer, atira-se para os braços da Doutora, quem sabe procurando um pouco de humanidade num lugar repleto de frio, metal e silêncio. Um lugar onde as pessoas se habituam, de tal maneira, à solidão, que a companhia de alguém parece uma anomalia ambiental.

— Tem calma… — diz, tentando consolá-la, enquanto lhe acaricia o cabelo e mantém a sua cabeça no colo. — O que se passa?

— Naquela noite, quando o astronauta… — E Miss deixa a frase a meio, fechando os olhos.

A Doutora abraça-a de novo, sabe aquilo por que está a passar. Aconteceu-lhe o mesmo e reconhece que as recordações não percebem nada de tempo. Quando magoam, magoam; infelizmente, as recordações magoam sempre no presente.

— Vai acontecer, de vez em quando, lembrares-te, mas vai doer cada vez menos. Não te vou mentir: estará sempre presente, mas virá um dia em que terás outras coisas maravilhosas à tua volta. Quando participei em missões humanitárias, tive de ver… à minha frente… muitos homens… muitos selvagens… violarem mulheres, crianças… Eram crianças, e agarravam-nas, arrancavam-lhes a roupa, atiravam-nas para o chão… — E, pela primeira vez, a concorrente mais forte da colónia, o farol que todos orientava… desaba diante de milhões de espectadores.

E chora.

E não chora apenas pelo que aconteceu a Miss, chora porque, por vezes, duvida, por vezes, pergunta-se se o ser humano merece viver. E isso faz com que repense toda a sua vida, uma vida dedicada aos outros.

— Lamento… — Agora, é Miss quem tenta consolá-la.

Abraçam-se com força. As audiências continuam a subir.

Depois de alguns minutos em silêncio, é a modelo que continua a falar.

— Mas não é isso… Não me sinto bem…

E a preocupação inunda o rosto da Doutora. Sabe que ficar doente, ali, pode ser demasiado perigoso: quase não há medicamentos, não há material médico, não há ambulâncias à porta, à espera de nos levar ao hospital. Uma simples apendicite pode ser mortal.

Nas redes sociais, as opiniões voam, livres, alimentando qualquer rumor criado pela dúvida. A suspeita que ganha mais força é, sem dúvida, a de cancro. É o que dá estarem expostos a tanta radiação, referem os principais canais e fóruns.

As casas de apostas aproveitam a oportunidade e, em apenas cinco minutos, lançam propostas com diferentes opções:

 

a) Cancro de pele.

b) Cancro de mama.

c) Cancro de pulmão

d) Cancro de estômago.

 

Milhões de pessoas apostam o seu dinheiro.

— O que sentes? É físico ou psicológico? — pergunta a Doutora, recordando o sucedido. — Não te deixes abater como a Veruca, hem? Isso não. Não me podes deixar aqui sozinha. Não te vás abaixo, tu também. Pede-me tudo o que desejares, faremos o que disseres, mas não te vás abaixo, por favor, tu não…

Depois do que se passara com Veruca, as redes sociais explodem com mensagens de apoio. Os mais rápidos começam a gravar vídeos a dar-lhes coragem, os influencers mais famosos apressam-se a enviar mensagens com o hashtag #coragemmiss…

Abraçam-se, e a modelo aproxima-se o máximo possível do ouvido da Doutora, para que os microfones não consigam captar as suas palavras.

A Doutora afasta-se dela e olha-a diretamente.

Ficam em silêncio durante alguns segundos.

— Estou muito assustada — confessa Miss, cujas palavras escapam, trémulas, por entre os dentes, os lábios e o seu próprio medo.

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