Terra
Capítulo 47
Concorrente Número 6
— Já só nos restam três concorrentes — referiu a apresentadora, ao mesmo tempo que abria um novo envelope.
Olhou para o cartão e passou-o ao colega. Ambos sorriram.
— Outra das preferidas, sem dúvida… Quem não gostaria de a ter junto a si em caso de emergência?
E, depois destas palavras, uma grande exclamação percorreu a assistência. Todos os presentes sabiam de quem estavam a falar.
Apagaram-se as luzes, ouviu-se a música, e, no ecrã, apareceu a escolhida.
Laura Ricci, «a Doutora»
Concorrente n.º 142 491
39 anos
Médica
O público pôs-se de pé para a aplaudir, não apenas para lhe dar os parabéns, mas em sinal de respeito. Desde que se apresentou a concurso, foi uma das participantes mais valorizadas. Uma mulher corajosa, forte, segura de si, uma mulher que passara a maior parte da vida a trabalhar como voluntária nos lugares mais conflituosos e miseráveis da Terra. Uma mulher que salvara milhares de pessoas; habituada a operar nas piores circunstâncias, que não tinha em conta a que fação pertencia um ferido, quando se tratava de lhe salvar a vida. Uma das melhores cirurgiãs do mundo, tão versátil, que era capaz de fazer um transplante ou de trazer uma criança ao mundo quase sem equipamento médico. Uma vida dedicada aos outros.
As câmaras fizeram zoom sobre o seu rosto. Um rosto de alegria contida: apenas a suficiente para provar que estava feliz por ter sido escolhida, mas sem cair numa atitude que pudesse incomodar aqueles que não o haviam sido.
De seguida, mostraram no ecrã o seu vídeo de apresentação. Nele, falava brevemente da família, da infância e da sua carreira na medicina e agradecia a todas as pessoas que tinham passado pela sua vida, inclusive as que quase a haviam abandonado.
Reservou algumas palavras finais, que atingiram o coração do público, palavras que definiam perfeitamente a essência daquela mulher.
Durante toda a vida, percebi o mal que o ser humano pode fazer, fui testemunha das piores atrocidades: assisti a assassinatos, mutilações, abusos de crianças; violações, em grupo, de mulheres que eram minhas amigas, sem que pudesse fazer algo para o evitar; vi o ser humano comportar-se como o pior dos animais. Muitas vezes, estive prestes a morrer. Escondi-me, fugi, pedi ajuda, tive medo, muito medo, mas é verdade que também vi precisamente o contrário: senti o amor de um desconhecido, a ajuda de um inimigo, a proteção de uma mãe, o companheirismo, a felicidade de uma família, a generosidade daquele que nada tem. Vi crescer a amizade e o amor em lugares em que nem as plantas se atrevem a nascer…
Vi as duas faces do ser humano: o amor e o ódio, o respeito e a violência, a amizade e a traição, a generosidade e a cobiça…
Talvez por isso, porque acredito que o ser humano é capaz de escolher uma dessas faces, gostaria de fazer parte de uma sociedade que vai começar do zero. Gostaria de estar lá, para evitar que aconteça o mesmo que aqui. Pelo menos, quero morrer sabendo que tentei.
Quando o vídeo acabou de ser projetado, ouviu-se o aplauso mais intenso e mais longo de toda a noite.
Aquilo que muitos espectadores não sabiam era que, além disso, aquela mulher conseguira convencer as grandes corporações farmacêuticas, de modo a levarem, na viagem, equipamento médico de primeira qualidade e todo o tipo de medicamentos essenciais.
Aquilo que ninguém sabia — nem ela própria, sequer — era que a organização a escolhera por outro motivo.
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