Terra
Capítulo 206
Uma vez por mês, pegamos no carro e, depois de oito horas de viagem, vimos aqui, ao lago Jökulsárlón, para mim um dos lugares mais bonitos do planeta. Este lago é como um termómetro da Terra: os pequenos icebergues que flutuam nele indicam a velocidade a que estamos a destruir o mundo.
Aqui, brinco com Eva: rimos, gritamos, corremos pela margem de um lago que nos pede ajuda em cada pedaço de gelo que se fragmenta, soltando-se dele…
Por vezes, com alguma sorte, também conseguimos ver uma ou outra foca, que, vindo à tona, nos cumprimenta. Outras, somos nós, de baixo, que cumprimentamos as gaivotas que voam à nossa volta.
E tiro fotografias, sempre que venho, tiro fotografias, muitas fotografias… fotografias que publico na Internet, fotografias que envio para revistas, para muitas organizações, para políticos… Fotografias que, mês após mês, revelam uma realidade demasiado incómoda: há cada vez mais água e cada vez menos gelo.
Escandalizamo-nos quando saem notícias de pais que maltratam os filhos, de filhos que maltratam os pais… mas, afinal, estamos a fazer o mesmo com o planeta: estamos a matar quem nos dá a vida, e, contudo, ninguém parece preocupado com isso.
Como diria o meu pai: o ser humano é assim.
No que diz respeito aos anéis, ainda não codifiquei nenhum, talvez porque fazê-lo seria perder completamente a esperança. E eu, ao contrário do meu pai, ainda acho que isto pode ser resolvido, ainda tenho a ilusão de que um dia o ser humano perceberá que está a morder a mão que lhe dá de comer.
Não codifiquei nenhum, apesar da insistência de zerozero, um dos elementos do grupo de hackers anónimos com que o meu irmão trabalhou enquanto andámos à procura das chaves. Um dos hackers mais perigosos do mundo, porque é responsável por decidir se alguém pode, ou não, viver; é ele que realiza as investigações necessárias para verificar se um determinado comprador merece ter um anel. Foi também ele que inventou o sistema para os codificar.
Zerozero, um hacker que é uma rapariga que tem um zero tatuado em cada uma das mãos. Alguém que tinha de manter tudo sob controlo, de dentro do próprio jogo, alguém que tinha de agir de forma imediata perante qualquer problema, qualquer imprevisto… a pessoa que, além de John, sabia o que se estava a passar desde o primeiro instante.
Às vezes, penso em tudo o que aconteceu há muitos anos naquela cabana, penso no meu irmão, no meu pai, no desejo que lhe pedi… E, é verdade, as palavras que disse ao meu pai não foram «Quero salvar o mundo». Disse-lhe que queria salvar a Terra.
Agora, tenho-a ali, à minha frente: uma pequena vida que, neste preciso momento, está a tentar apanhar um pedaço de gelo sem cair à água.
Uma pequena vida que estremece todas as manhãs ao sentir o frio e que sorri de cada vez que o Sol nasce; que fica maravilhada ao observar o voo de uma borboleta, a força da água ou a beleza de uma flor; que grita quando algum inseto lhe pousa em cima, que chora quando olha para si mesma e que sorri de cada vez que alguém lhe oferece um pouco de amor.
Uma pequena vida que se diverte a brincar com as pedras, a areia ou a lama entre as mãos; e que é feliz sempre que a chuva dança à sua volta.
Uma pequena vida de que temos de cuidar para que possa recuperar das suas feridas… para que possa respirar por si mesma.
Eu, pela minha parte, vou fazer os possíveis para que a vida de Terra seja longa, muito longa… mas aqui, na Terra.
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