Terra

Eloy Moreno · Capítulo 130 de 205

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Terra

Capítulo 130

— Alan — disse, enquanto lhe agarrava na mão, como se ele fosse um apoio que podia trazer-lhe paz —, quanto tempo se passou desde a última vez?

— Muito… Desculpa não ter vindo ver-te.

— Não te preocupes. As tuas chamadas eram suficientes.

— Olha, esta é a Nel, a minha irmã.

Nesse momento, a mulher aproximou-se de mim e estendeu-me a mão. Uma mão de osso e metal. Cinco dedos que mal tinham carne, adornados com vários anéis, que, sem dúvida, lhe ficavam grandes. Reconheci um deles.

O meu irmão pegou-lhe suavemente e acompanhou-a até uma sala contígua. Ali, sentou-se ao seu lado num grande sofá.

Um mordomo aproximou-se, para nos oferecer infusões de todo o tipo, e deixou também um tabuleiro com bolachas.

— Mas, então, diz-me, o que vos traz por cá? Em que posso ajudar-vos?

— Não sei por onde começar. Bem, o nosso pai deixou-nos uma missão, uma última missão. Já sabe como ele era. E estamos completamente perdidos — disse o meu irmão.

— Sim, bem sei como ele era. Sempre a brincar, sempre a fazer coisas diferentes… Houve uma altura em que apreciei muito o vosso pai, muitíssimo. — Fez um esforço para sorrir. — Mas isso foi antes de começar a odiá-lo, claro. Foi antes de ter feito… — Ficou em silêncio durante uns instantes. — Mas conta lá…

Explicámos-lhe o jogo das chaves, as caixas, as pistas, como tínhamos, finalmente, chegado a ela; dissemos-lhe que na última caixa não havia uma chave, mas o nome dela. Perguntámos-lhe, mas não se lembrava de ter tido uma chave com um trevo, nem uma caixa amarela…

— Calculámos que aconteceria algo semelhante — disse o meu irmão —, que não seria assim tão fácil, por isso, gostava de lhe fazer algumas perguntas. Podem ser dolorosas, mas, por algum motivo, as pistas do meu pai conduziram-nos a si.

— Dolorosas? — perguntou, exibindo um sorriso que não chegou a ser real. — Acho que não há nada mais doloroso do que a própria dor. Já nem a alma me dói. Há alturas em que a única coisa que me assusta é esquecer. Os dias passam, e as recordações, como os desenhos na areia, são levadas pelas ondas do tempo. Tenta-se fazer o impossível para que não aconteça: vejo fotografias, leio as suas cartas, recordo os momentos, os bons e os maus, mas há um instante em que me esqueço da cara, das suas caras… Isto, isto é dor em estado puro.

O meu irmão apertou-lhe suavemente a mão.

— Desculpa… Diz lá.

— Queríamos saber a sua opinião, a sua opinião sobre o que aconteceu ao seu marido. Talvez isso nos possa ajudar.

O meu irmão tivera muito tato. Havia dois fios que podíamos puxar, o do marido e o da filha. Começou pelo menos doloroso.

E, quando ambos pensávamos que nos ia contar a história conhecida, a que apareceu em todos os jornais, a do acidente de automóvel, disse uma coisa que nos deixou sem palavras.

— Mataram o meu marido — afirmou, sem que o seu rosto se alterasse.

— O quê? Mas como? Quem? — foi a única coisa que me ocorreu dizer.

— Mataram o meu marido — repetiu, desta vez quase sem se fazer ouvir.

— Como?… Num automóvel. E quem? — Então, respirou fundo. Olhou-nos diretamente. — O vosso pai.

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