Terra
Capítulo 203
Encontravam-se ali anéis, muitos…
Eu e o meu irmão ficámos em silêncio.
— Estão aí, exatamente, cem anéis — interveio o homem. — Ainda não foram atribuídos a ninguém. Acho que lhe cabe a si fazê-lo.
Olhei para o meu irmão.
Nesse momento, lembrei-me da carta do meu pai: se tivesses de salvar cem pessoas.
E, se fosse preciso escolher, se tivesses de escolher quem salvar e quem não salvar… Serias
justa?
Talvez sejam demasiadas perguntas para uma só carta. Mas não te preocupes, as respostas
surgirão à medida que te aproximares do fim do jogo, quando tiveres de escolher entre dizer a verdade ou escondê-la, para que a vida possa crescer. E vais ter de o fazer, garanto-te.
— Claro que — voltou a interromper aquele homem, enquanto tirava um papelinho do bolso —, segundo aquilo que o seu pai me deixou escrito, a frase exata que pronunciou ao pedir o desejo não foi «Salvar o mundo».
— O quê? — exclamei, perfeitamente surpreendida. — De que está agora a falar?
— Veja, aquilo que o seu pai deixou anotado, a frase exata que lhe disse ao ouvido foi esta. — Com o dedo, apontou para o que estava escrito no papel, para nos mostrar.
— E que importa isso?! Como iria lembrar-se das palavras exatas passados tantos anos? — disse o meu irmão, irritado.
— Bem, as palavras são sempre importantes, mais ainda para uma jornalista — respondeu, de forma tranquila.
Silêncio.
— Não compreendo… Não compreendo que importância pode isso ter — disse-lhe eu também.
— Bem, esqueçamos este pormenor. Afinal, o seu pai cumpriu a parte dele do acordo. Agora, é a sua vez — disse-nos, enquanto olhava de novo para o papel. — Ah, em relação aos anéis, não se preocupe. Na verdade, pode deixá-los aqui. Não têm qualquer valor enquanto não forem codificados.
— Mas como vou eu codificá-los?
— Calma. Trata-se disso depois. Agora, tem de cumprir a sua parte do acordo.
Fomos os três lá para fora.
Encostámo-nos a uma vedação de madeira que separava a geladaria dos baloiços. Dali, podíamos ver todas as crianças. Eram umas doze, mais ou menos.
Cabia-me escolher uma vida.
— Na verdade, todos estes miúdos são maravilhosos — afirmou o homem. — Precisam apenas de um pouco de carinho, de alguém que, de vez em quando, lhes dê um beijo, alguém que os abrace, alguém que lhes diga que a sua vida faz sentido. Não é muito complicado. Além disso, Nel, estamos aqui para te ajudar naquilo de que precisares.
De um momento para o outro, aquele homem tratou-me por tu. Numa ou noutra frase solta, pude até verificar uma mudança no seu tom de voz. Era como se, com o fim do jogo, toda a tensão que trazia dentro de si tivesse desaparecido.
Comecei a chorar ao contemplar todas as crianças.
— Como posso escolher uma vida ao acaso? — disse, enquanto as olhava.
— Calma. É para isso que aqui estou, para a ajudar — disse-me o homem. — Muitas foram abandonadas à nascença, mas outras tiveram o azar de os pais terem morrido quando eram pequenas. Se alguém lhes der um pouco de amor, serão felizes.
As lágrimas não me deixavam ver. Só conseguia divisar pequenas vidas correndo de um lado para o outro.
— Repare naquele menino que acaba de subir para o escorrega. Chama-se Bjarni, é pequeno, mas muito corajoso. Não cresceu muito, porque sofreu maus-tratos durante os primeiros anos de vida: mal lhe davam de comer, alimentava-se com aquilo que conseguia apanhar no lixo. Finalmente, a polícia entrou na casa dos pais e conseguiu recolhê-lo. É pequeno e tem mau feitio, mas um coração extraordinário.
Doía-me cada vez mais a alma. E ali estávamos nós, a observar uma vitrina cheia de vidas que ninguém quisera.
— Aquela ali, a pequenina dos óculos, só tem um problema. Não ouve muito bem. Não é de nascença: simplesmente, o pai deu-lhe uma sova tal, que a deixou surda. Como é possível espancar uma menina como ela, uma pequena vida que não fez nada, tão inocente? De cada vez que penso nisso… Mas, aos poucos, graças a várias operações, parece que está a ouvir cada vez melhor. É adorável. É, talvez, a menina mais carinhosa de todas.
As lágrimas continuavam a escorrer-me pelo rosto. Não conseguia parar de chorar, era impossível. E ali estávamos, de uma forma ou de outra, a decidir o futuro de uma daquelas crianças.
— Veja aquele — continuou o homem —, é o mais velho de todos, mas também o mais responsável: encarrega-se de tomar conta dos outros. Os pais morreram num acidente de automóvel, e o resto da família não quis saber de nada, ninguém quis ficar com ele. Era demasiado velho. O que lhe parece?
— Não sei! Não sei! Não sei como posso decidir uma coisa destas! — gritei.
— Tem razão, tem razão, lamento imenso. Talvez não esteja a ajudá-la muito, talvez seja tudo demasiado frio, talvez devesse conhecê-los, falar com eles. Ora bem… — E começou a procurar com o olhar. — Olhe, está a ver aquela menina? A que está sentada no chão?
— Sim — disse, limpando as lágrimas.
— Chama-se Eva e é muito tímida. Acho que seria uma boa hipótese. Nunca conheceu o pai, a mãe morreu quando ela era muito pequena. Poderíamos dizer que o resto da família está desaparecida, pelo que acabaram por a trazer para aqui. Tem cicatrizes de queimaduras no pescoço e no peito, por isso, nunca quer tomar banho, tem vergonha de que a vejam despida. Devido à gravidade das feridas, sente dores crónicas e tem dificuldade em realizar alguns movimentos. Felizmente, aqui, todos tomamos conta dela, e, graças à reabilitação, tem recuperado aos poucos. A tecnologia avançou muito.
»Eva! — gritou, e a pequena virou-se. — Podes chegar aqui por um instante?
A menina levantou-se do chão, e vimos um sorriso aproximar-se de nós.
Enquanto a menina se aproximava, apercebi-me de que aquele homem tão grande começava a chorar. As lágrimas caíam-lhe atrás dos óculos e morriam-lhe no interior da barba. Estava a acontecer algo estranho.
— A culpa foi minha, a culpa foi minha… — disse, ao mesmo tempo que se ia abaixo. — Ela tem aquelas cicatrizes por minha causa. Não consegui fazer mais, não consegui fazer mais… Tentei, juro que tentei, mas não consegui fazer melhor… Veja, as queimaduras dela são como estas…
Nesse momento, começou a tirar as luvas, para nos mostrar as mãos. E foi uma delas, a direita, que me fez tremer de medo. Não pela grande queimadura que cobria as costas da mão, mas pela tatuagem de uma serpente que se revelava, esbatida, entre a carne e o fogo.
Comecei a sentir-me indisposta, a sentir calor, a sentir frio; o meu corpo tremia como nunca. Era como se tudo o que me rodeava estivesse fora do sítio, como se alguém o tivesse sacudido e não o tivesse conseguido devolver ao seu lugar. Por um instante, começou a faltar-me o ar, vi tudo a andar à roda, e mal me apercebi de que a menina já se encontrava junto de nós.
— Olá, Eva — disse o homem. — Esta senhora chama-se Nel Miller, veio para…
Quando a menina se pôs à minha frente, deixei de ouvir, esqueci-me até de respirar. Não consegui afastar os olhos dos dela: um verde e outro azul.
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