Terra
Capítulo 172
No dia seguinte, chegámos a Húsafell às primeiras horas da manhã, embora o sol já ali estivesse desde o dia anterior. Na realidade, Húsafell não era uma povoação, mas uma quinta à volta da qual iam aparecendo alguns serviços, entre eles um hotel com o mesmo nome.
O amigo do meu irmão mexera uns quantos cordelinhos para que nos pudéssemos encontrar com o diretor do museu na cafetaria desse hotel. Entrámos e ficámos numa pequena sala situada no piso térreo. Uma enorme janela revelava a beleza de uma Natureza que ainda tinha autorização para ser selvagem. Sentámo-nos em dois sofás, um em frente ao outro, separados por uma mesinha em que nos serviram dois cafés.
Passados poucos minutos, aproximou-se de nós um homem vestido com um fato.
— Viva — disse-nos, exibindo um grande sorriso. — O meu nome é Jónas, sou o diretor do museu. É um prazer conhecer-vos.
Eu e o meu irmão levantámo-nos para lhe apertar a mão.
— Desculpem ter marcado tão cedo, mas, afinal, no verão, quando é que é cedo aqui? — Sorriu. — Preferi preparar-vos uma visita guiada antes da abertura do museu. Assim, não haverá turistas.
— Perfeito — respondi.
— Bem, se estiverem prontos, iremos daqui no meu carro até ao parque de estacionamento onde temos os elefantes.
— Os elefantes? — perguntei.
— Sim — respondeu, sorrindo. — São uns camiões enormes, os únicos em que conseguimos chegar ao museu. Entramos no quatro-por-quatro para percorrer um caminho de terra e rocha. A viagem não dura mais de vinte minutos.
Quando chegámos ao parque de estacionamento, vimos vários camiões com rodas gigantes. Num deles, havia um motorista à nossa espera. Subimos, e o monstro arrancou.
Durante os primeiros minutos, Jónas referiu que íamos atravessar parte do glaciar Langjökull, o segundo maior da Islândia. Um glaciar que, infelizmente, ia perdendo dimensão ano após ano e que, segundo as estimativas, em 2100, teria desaparecido por completo.
Começámos a circular sobre um manto branco rodeado de frio e silêncio. A cada metro que o camião avançava, podíamos ouvir o estalar do gelo. Em determinadas ocasiões, o veículo detinha-se para voltar a ganhar tração. Jónas explicou que cada roda tinha um sistema pneumático que permitia regular a pressão dos pneus a partir da cabina e, assim, adaptá-los ao terreno.
Depois de quase uma hora a percorrer aquele deserto branco, chegámos a um lugar no meio do nada. Apenas uma grande porta que parecia nascer do chão, como uma entrada para uma caverna. Por cima da mesma, um pequeno letreiro metálico: MUSEU.
Saímos do veículo e entrámos na receção, de onde saía um túnel.
— Este museu — disse-nos, enquanto nos dava dois coletes especiais — está construído por baixo do gelo. Fizemo-lo em memória do antigo centro de controlo, que, em parte, também estava debaixo do glaciar.
Enquanto Jónas falava, apercebi-me de algo curioso: havia ali demasiada segurança. Durante o trajeto, detetara, pelo menos, três drones que nos tinham estado a vigiar, e, à porta do museu, havia várias câmaras. Mas o que mais chamou a minha atenção foi o facto de, no interior, na receção, também haver dois seguranças.
— É preciso esta segurança toda? — perguntei.
— Bem, mesmo que não pareça, temos aqui peças de grande valor. Algumas pessoas pagariam milhões por elas. Há informações pessoais de quando os participantes estavam na fase de seleção: as últimas roupas que vestiram, desenhos, cartas…
— Sim, mas… e os drones?
— Estou a ver que nada lhe escapa — disse, sem responder à pergunta. — Tudo a seu tempo. Venham comigo.
Passámos as credenciais por um leitor, e as portas abriram-se. Começámos a atravessar um corredor de gelo. Era lindo.
— Sei que estão interessados numa sala em particular, mas permitam-me mostrar-vos rapidamente o museu. Como é feito de gelo, é espetacular.
E nós seguimo-lo.
A primeira sala a que acedemos era designada CENTINEL.
Mal entrámos, um mural gigante deu-nos as boas-vindas; nele, apareciam as bandeiras de todos os países que tinham participado na primeira missão tripulada a Marte.
Avançámos pela sala até chegarmos a uma parede em que se viam dois retratos gigantes: um homem e uma mulher. Tripulantes da Centinel, dizia.
— Mas não eram três? — perguntei.
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