Terra
Capítulo 110
A primeira imagem que a Doutora e Miss viram quando entraram era desoladora: o pediatra estava no chão, com a boca a sangrar. A alguns metros, o militar prendia o Mãozinhas com o braço direito. A cobra tatuada parecia mais viva do que nunca.
Toda a cena se tornou viral quando chegou à Terra. Tudo começara com um primeiro plano do Mãozinhas a consultar as redes sociais no seu dispositivo, a responder a mensagens, quando o seu rosto mudou de repente. A expressão começou a endurecer, à medida que passava as mensagens que lhe iam chegando a toda a velocidade. Continuou durante dois ou três minutos, até não aguentar mais e se levantar.
Não fez perguntas. Foi direto a Frank, que nesse momento estava a beber um café, e pôs-lhe o telemóvel a cinco centímetros da cara.
— Isto é verdade? — perguntou-lhe, aos gritos.
— O quê? O quê? Não percebo — respondeu Frank, surpreendido e assustado.
— Isto! Isto! Filho da puta! — continuou, ainda a gritar. — Esta noite violaste a Miss!
— O quê? Eu? Não, não! Não fiz na…
O Mãozinhas não conseguiu conter-se. Lançou o punho, que caiu como uma bigorna no queixo de Frank. O impacto deitou-o por terra.
O pediatra, aturdido, levou a mão à boca, de onde começava a sair um fio de sangue.
Nesse mesmo instante, John levantou do sofá os seus cento e muitos quilos de músculo e agarrou no Mãozinhas para o deter.
— Estás doido? — gritou-lhe, enquanto o agarrava com força pelas costas. — Porque fizeste isso?
Foi nesse instante que Miss e a Doutora apareceram à porta.
Depois do choque inicial, Veruca foi a correr para um canto e aninhou-se no chão. Ali, começou a chorar, sem largar um telemóvel que continuava a transmitir em direto para o seu canal.
Andrea pegou no computador e escondeu-se atrás do sofá.
O Jardineiro, durante os primeiros instantes, também ficou paralisado pelo ocorrido. Ainda não tinha consultado as redes sociais. Quase nunca o fazia de manhã, esperava sempre pela tarde, quando podia partilhar os seus progressos com as plantas.
— Não fui eu, não fui eu! Seja o que for, não fui eu. Não saí da cama a noite inteira… — lamentava-se Frank, do chão, cuspindo sangue a cada palavra.
— Claro que foi ele, não foi? — perguntava o Mãozinhas à modelo, tentando fugir de John.
Miss abraçou-se de novo à Doutora e começou a chorar.
— O que se passou? Vamos acalmar-nos e tentar esclarecer tudo — gritou-lhe o militar, sem o soltar.
— Esta noite alguém violou a Miss! Raios! Violaram-na! Merda, merda, merda! — gritou o Mãozinhas.
De imediato, todos os olhares se voltaram para o rosto de Miss, que não conseguia dizer nada. Os seus olhos estavam fixos num ponto qualquer.
— Eu não fui, e ele também não — continuou o Mãozinhas, apontando para o Jardineiro—, portanto, só podem ter sido duas pessoas.
— Bem! — gritou o militar. — Nesse caso, também podia ter sido eu.
— Não! — voltou a gritar. — Ela disse que não era um homem tão grande, que te teria reconhecido. Foi ele.
— Mas que provas tens? — insistiu John.
— Não há aqui mais ninguém! Que provas queres? — E, com um gesto brusco, tentou libertar-se dos braços do militar, para se lançar de novo sobre Frank. John conseguiu detê-lo a tempo.
— Juro-vos que não fui eu — lamentava-se Frank, no chão.
Devagar, a Doutora foi soltando Miss e ajudou o pediatra a levantar-se.
— Vou levá-lo para a enfermaria. John, tenta acalmá-lo até sabermos o que se passou.
— Filho da puta! — gritou o Mãozinhas. — Aqui, não tens para onde ir. Não podes escapar!
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