Terra

Eloy Moreno · Capítulo 163 de 205

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Terra

Capítulo 165

— Foi um dos golpes mais duros que a empresa sofreu: milhões de dólares desapareceram em menos de um dia — respondeu o meu irmão.

Fiquei a olhar para o vazio, sem saber muito bem de que falavam.

— O que se passou? — perguntei.

— No fim, a Natureza é sempre mais forte do que o Homem — respondeu o seu amigo. — Pensavam que as instalações estavam protegidas contra tudo e não levaram muito a sério a quantidade de vulcões que existe debaixo desta ilha. Lembras-te de há uns anos, quando o vulcão Eyjafjallajökull entrou em erupção?

— Foi aquele que interrompeu parte do tráfego aéreo da Europa durante alguns dias? — respondi.

— Sim, exatamente. Foram cancelados milhares de voos, mas, enfim, trata-se de algo a que, de uma forma ou de outra, os islandeses estão habituados. Ao longo da sua História, foram vários os vulcões que acabaram por entrar em erupção, mas quem poderia imaginar que, ainda que de forma ligeira, haveria de entrar em atividade logo aquele que se encontrava por baixo do centro de dados? Destruiu quase oitenta por cento das instalações. Conseguimos evacuar muita gente, mas, mesmo assim, morreram cinco pessoas, funcionários que não conseguiram sair a tempo. Convém ter em conta que, para lá chegar, eram precisos veículos especiais. O edifício ficava num glaciar.

— Agora, que falas nisso — disse —, sim, lembro-me de qualquer coisa, mas não se atribuiu grande importância ao facto.

— Bem, na verdade, não foi muito espetacular. Apenas uma pequena explosão, que não obrigou ao cancelamento de nenhum voo, mas que aconteceu mesmo por baixo do centro de controlo.

— Eu soube do ocorrido — acrescentou o meu irmão —, mas o pai não quis que se publicasse nada. Dizer que se tinha perdido milhões de dólares, que tinham morrido várias pessoas porque não se soube escolher bem o local não é publicidade favorável, para dizer a verdade.

— E os dados? — perguntei.

— Provavelmente, perdeu-se tudo… — disse o amigo do meu irmão.

— Ou talvez não… — replicou o meu irmão, de imediato, olhando para mim.

Lembrei-me logo da conversa que tivera com ele no avião: imagens pelas quais as pessoas pagariam muito dinheiro.

— Alguma vez entraste nessa sala? Viste o que havia lá dentro? — perguntei, um pouco nervosa.

— Bem, como vos disse, a sala já não existe, mas construíram outra no último andar do museu, vi-a uma vez. Tem o mesmo símbolo na porta.

— E o que há dentro dessa sala? — insisti.

— Apenas um ecrã de cinema e umas quantas poltronas.

Eu e o meu irmão olhámo-nos, cúmplices. Sabíamos que estávamos a pensar no mesmo, mas nenhum de nós disse fosse o que fosse, pelo menos, à frente do seu amigo.

— E o que há dentro do museu? — quis saber.

— Ah, sim, é um pequeno museu para fãs obcecados pelo programa, em que se homenageiam os concorrentes que partiram para Marte. Existe apenas uma empresa autorizada a organizar visitas, e tudo está sujeito a medidas de segurança muito rigorosas. A visita inclui a viagem num daqueles camiões gigantes e a entrada no museu.

O amigo do meu irmão viu as horas e sobressaltou-se.

— Bem, tenho de ir. Já devia estar há algum tempo numa reunião em Reiquejavique, um projeto que envolve muito dinheiro. Vamos lá ver se corre bem. — Sorriu-nos. — Não sei se fui grande ajuda. Espero que sim, com a história do porta-chaves. Sobre a outra chave, não sei onde vivia o pai da Veruca, mas tenho a certeza de que não será difícil descobrir. A Islândia é um país pequeno. Se acharem bem, esta tarde trago as credenciais, e amanhã podem ir ao museu ver se conseguem entrar na tal sala. O diretor é um tipo bastante simpático.

— Fica longe? — perguntei.

— Húsafell? Não muito, a umas duas horas de Reiquejavique, mas só abrem de manhã. Durante o dia de hoje ainda, trato de tudo e digo-vos qualquer coisa.

— Perfeito — respondi.

Despedimo-nos do amigo do meu irmão. Tínhamos o resto do dia livre para fazer turismo ou tentar procurar a tal casa. O meu irmão optou pela primeira opção. E eu, de certa maneira, fiquei contente.

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