Terra

Eloy Moreno · Capítulo 92 de 205

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Terra

Capítulo 92

— Posso garantir que a Andrea foi a aluna mais inteligente que pisou as salas de aula desta universidade. Muitas pessoas disseram que era um milagre, uma rapariga que vagueava pelas ruas de Pequim, entre ratazanas e lixo, poder estudar numa das universidades mais prestigiadas do mundo.

O reitor dirigiu-se a nós.

— Mas não foi um milagre. O vosso pai tinha olhos em todos os cantos do mundo. E sempre se sentiu fascinado por este tipo de pessoas, seres humanos com uma inteligência excecional… por isso se tornou tutor dela.

— O quê? — dissemos, quase ao mesmo tempo.

— Sim, é verdade. Entre todas as suas fundações, há uma especial que quase ninguém conhece. Uma a que destinou grande parte da sua fortuna. O vosso pai investiu muito dinheiro para transformar este planeta num mundo melhor, embora não de uma forma, digamos, comum.

O reitor olhou para nós e voltou a sentar-se.

— É verdade que nunca investiu um dólar a tentar ajudar as pessoas desfavorecidas, sem mais. O vosso pai concentrava-se nas pessoas inteligentes e que, além disso, se esforçavam. E, das pessoas que enviava para a fundação, apadrinhava as melhores, as mais brilhantes. Ajudava-as através de bolsas muito especiais.

— Bolsas muito generosas — disse o meu irmão.

— A generosidade é relativa — respondeu o reitor. — Na realidade, para ele, era pouco dinheiro, quase nada, mas, sim, para uma pessoa comum, é uma verdadeira fortuna. Mas estou a desviar-me da história. O problema que temos nesta universidade, e, na verdade, em todas, é que o nível dos alunos que chegam é cada vez mais baixo. O ensino, tal como a sociedade, vai-se degradando ano após ano. Chegámos a um ponto em que são exigidas responsabilidades aos professores se um aluno reprova. Mas não só por parte da comunidade educativa, também por parte dos pais, das associações, dos partidos políticos…

»Nenhum aluno se pode sentir inferior a outro. Os estudantes não podem sofrer, não devem esforçar-se, todos devem ser iguais. É a ideia do comunismo, extrapolada para a educação. E, claro, exige que se nivele por baixo, pela preguiça. É sempre mais fácil o estudioso transformar-se em alguém ocioso do que o contrário. Criámos uma sociedade de verdadeiros idiotas.

»Temos alunos que não sabem escrever, que não compreendem o que leem. Por esse motivo, já não fazemos exames escritos, fazemos testes. Chegámos ao ponto de, no caso remoto de um aluno reprovar num exame, serem os pais a vir fazer a melhoria de nota.

»Aqui, os estudantes só querem lazer: sexo, dormir, comer e, acima de tudo, festas, festa de receção, festa de outono, festa de inverno, festa de primavera, festa de despedida, festa de licenciatura… Foi nisso que se transformou a universidade, numa creche para adolescentes.

— Mas porque não sobem o nível?

— Porque, se assim fosse, ninguém quereria vir. Os pais não nos pagavam as propinas e os filhos iam para outra universidade, onde passassem de forma mais fácil.

Silêncio.

— Felizmente, de vez em quando, aparece alguém extraordinário, como a Andrea.

— Uma aluna que acabou o curso dois anos mais cedo.

— Na verdade, obrigámo-la a concluí-lo.

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