Terra
Capítulo 145
E tudo é silêncio: o ar que não se chega a respirar é silêncio; os olhares que ficam presos em Miss são silêncio; as lágrimas que ainda não escorreram são silêncio; e o medo, a surpresa e a alegria, no princípio, também são silêncio.
Silêncio na sala de controlo, silêncio em cada uma das regiões do mundo; silêncio nas ruas, nos hospitais, nas prisões, nas empresas, nos aviões, nas televisões e, até, algo inaudito, silêncio nas redes sociais. O zoom da câmara aproxima-se tanto de Miss, que consegue detetar o tremor nas suas pálpebras, aquele que precede o transbordar das lágrimas. E daí, dessa mesma câmara, lentamente, desce até à sua barriga.
Silêncio.
De repente, tudo é alarido.
A modelo começa a chorar como nunca antes fizera. E a Doutora também chora com ela, e abraçam-se, e os companheiros esquecem as suas quezílias e o astronauta e a pistola e o dente de Frank e Veruca, e abraçam-se. E choram, porque, afinal, toda a gente chora.
E a Terra sorri, pela primeira vez em muitos anos. A Terra, no seu conjunto, sorri.
De repente, de uma forma que parece improvisada, mas que já estava preparada há algum tempo, aparece em todos os dispositivos uma única mensagem em centenas de línguas: PARABÉNS!
No instante seguinte, várias empresas de produtos para bebés ocupam a zona inferior dos ecrãs. Ninguém se pergunta como é possível os anúncios já estarem preparados, ninguém pensa como os procedimentos de esterilização terão falhado, ninguém pensa, por enquanto, no risco que envolve o nascimento de um bebé ali. Também ninguém pensa no pai.
E ninguém pensa porque, nesse momento, a colónia precisa de uma alegria, de um pequeno milagre que justifique todo o projeto, algo em comum por que lutar, uma esperança dentro da impossibilidade.
Aquele bebé não seria apenas o filho de Miss. Aquele bebé seria de todos os que ali estavam e, acima de tudo, aquele bebé seria da Humanidade.
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