Terra
Capítulo 187
A emissão continua.
Mostram-se agora as imagens da câmara situada na divisão que fazia as vezes de enfermaria e onde a Doutora parece estar a preparar o inventário. É precisamente no momento em que está prestes a tirar um recipiente da prateleira, que um som intenso a interrompe. Durante o segundo seguinte, serão muitos os frascos de vidro que irão cair ao chão.
Instintivamente, a Doutora abandona a divisão e corre à Sala Comum, para Terra, e é esse movimento que serve para lhe prolongar um pouco mais o tempo de vida. Quando sai, toda a sala desaba.
As câmaras passam agora de novo à Sala Comum, onde Andrea e Terra veem chegar a Doutora.
Enquanto as três permanecem abraçadas, formando um núcleo de vida que olha para um exterior que ameaça roubar-lha, as imagens voltam uns segundos atrás e mostram John a tentar levantar uma barra com pesos. Pega-lhe e, com dificuldade, começa a levantá-la. Um forte estrondo faz com que perca o equilíbrio e a barra se despenhe na vertical, em cima do seu pé esquerdo. Quase o perfura de um lado ao outro.
Urra, mas não se queixa. Não há tempo. Ouve-se o grito de Miss, que chega quando ela já não se encontra viva. John dirige-se à Sala Comum e depara ali com três vidas abraçadas, tentando proteger-se da incerteza e do medo.
De repente, outro estrondo, maior, mais forte, mais terrível. Um som que já nenhum dos outros quatro habitantes da colónia ouve.
A sala aguenta, mas não por muito tempo. Todos observam, com surpresa, a parede posterior, que separa a divisão do corredor, fender-se.
John não pensa duas vezes e pega em Terra ao colo, a pequena Terra, uma menina que chora sem saber o que está a acontecer, uma menina que não vai poder viver tanto como a Humanidade teria precisado que vivesse.
John e a menina dirigem-se ao pequeno armário onde se encontram guardados os fatos.
O teto começa a desfazer-se.
— Vamos, vamos! Vistam os fatos, e, sobretudo, ponham os capacetes. Tirem também as máscaras de oxigénio — grita-lhes, enquanto prime o botão de alarme geral que desativa o bloqueio de todas as portas, entre elas, a exterior.
Conseguem vestir os fatos em apenas dois minutos, algo que treinaram muitas vezes, imensas.
John tenta vestir um fato de adulto à criança, fecha-o como pode. O problema é o capacete. É enorme para uma cabeça tão pequena. Põe-lho e tenta selá-lo, colocando um colete à volta do pequeno pescoço.
A parede posterior desfez-se.
— Vamos! Não há tempo.
— Estás louco! Lá fora, morremos! — grita a Doutora, que não sabe muito bem o que estão a fazer.
— Aqui dentro também! — responde John. — A nossa única possibilidade é os tipos da Centinel virem ajudar-nos. A única salvação é terem o Rover lá fora e meterem-nos dentro do veículo. Temos alguns minutos. Não sendo assim, acabaremos por morrer. Quando saírem, afastem-se o máximo possível, para que nenhuma parede nos caia em cima e deite por terra.
John deixa a menina por instantes e, reunindo todas as suas forças, consegue abrir a primeira das duas portas, a que dá acesso a uma pequena zona isolada. Volta a pegar na criança. Atrás dele, entram também Andrea e a Doutora.
— Agora! — grita.
E, com Terra nos braços, consegue abrir a porta exterior de uma assentada.
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