Terra

Eloy Moreno · Capítulo 81 de 205

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Terra

Capítulo 81

Começa o primeiro dia do resto da tua vida.

Um dia em que a curiosidade ainda conseguirá vencer a rotina, mas que não durará para sempre. Aos poucos, será essa mesma rotina a enterrar o entusiasmo, a alegria e, por fim, a esperança.

A primeira tarefa consistiu em escolher os quartos. É verdade que a organização poderia tê-los deixado logo atribuídos, pois, na verdade, eram todos iguais, mas isso não ia gerar conflitos, e sem conflitos não há audiências.

— Ora bem, temos de escolher o quarto em que iremos passar o resto dos nossos dias — referiu Frank.

— Credo, isso não soou nada bem — respondeu o militar.

— Por mim, é indiferente. Não tem importância, visto que são todos iguais… — respondeu o Jardineiro.

— Por mim, também — acrescentou a Doutora.

— Eu prefiro que o meu não seja o primeiro — disse Veruca.

— Porquê? — perguntou Miss.

— Não sei… acho que tenho medo de estar tão perto da porta… no caso de…

— No caso de aparecer algum marciano! — gritou o Mãozinhas, e, nesse momento, todos desataram a rir.

Se algum deles tivesse sido capaz de adivinhar o futuro, certamente não teriam achado o comentário divertido: num lugar como aquele, nunca se sabe quem pode entrar porta dentro.

— Se não houver mais nenhuma exigência, podemos tirar à sorte. E, na eventualidade de, por coincidência — disse John, olhando para Veruca —, calhar o primeiro quarto à Veruca, o mais próximo da porta, eu troco o meu pelo dela. Combinado?

Todos assentiram, exceto Andrea, que continuava com o olhar preso ao ecrã do computador portátil.

— Andrea? — interpelou o militar.

Andrea virou-se devagar, como se aquela conversa não fosse com ela, como se, na verdade, nada do que se passava à sua volta lhe interessasse. Fitou-o com aqueles olhos cinzentos que tinham cativado meio mundo, e, com um movimento ligeiro, aquiesceu com a cabeça.

Fez-se o sorteio com uns papelinhos, e não houve problemas: o primeiro calhou ao Jardineiro.

— Então, vamos estrear os nossos quartos — disse, alegremente, Frank, a quem calhara o último, o mais afastado da porta. — O que acham de daqui a uma hora, mais ou menos, nos encontrarmos aqui para jantarmos juntos?

Todos concordaram, entusiasmados, exceto Andrea, que continuava hipnotizada pelo ecrã do computador.

Aquele primeiro jantar foi breve, quase fugaz. Ali não era preciso reservar mesa, não era necessário esperar pelo empregado, nunca haveria queixas quanto aos preços, não aguardariam em filas longas, à porta, nem teriam crianças a gritar na mesa ao lado. Mas também era verdade que nunca se poderia convidar os amigos, nem organizar um jantar com a família, e, por mais comentários que fossem publicados na Internet, no dia seguinte, ninguém teria oportunidade de nos dizer o que tinha achado.

Também não se encontraria comida que não tivesse sido processada e embalada. Comer uma peça de fruta ou legumes frescos seria impossível, pelo menos, durante algum tempo. Por isso, e apesar de terem estado a consumir produtos semelhantes durante os dias que antecederam os testes, quando deixaram em cima da mesa os invólucros metalizados, os tubos transparentes e as várias embalagens com alimentos, fez-se silêncio.

Miss tirou uma fotografia e publicou-a nas redes sociais.

John foi o primeiro a abrir algo que parecia pasta de dentes e a engoli-lo de uma assentada.

Em apenas alguns minutos, todos começaram a mastigar massas informes com pouco sabor, a beber líquidos de umas embalagens metalizadas e a devorar todo o tipo de barras mais ou menos agradáveis.

Durante aquele jantar, aconteceu algo que nenhuma das câmaras conseguiu captar: uma sensação percorreu a mente e o corpo de cada um dos concorrentes, a de valorizar o que já não possuíam, e que nunca mais possuiriam.

Depois do jantar, cada um limitou-se a reunir os restos das embalagens e a despedir-se dos outros companheiros. Talvez fosse o cansaço, talvez o impacto da realidade ou apenas o futuro a cair-lhes em cima, de repente, como uma tempestade em pleno verão.

— Até amanhã a todos — disse a Doutora.

E, com frases semelhantes, cada um deles despediu-se do primeiro dia do resto das suas vidas, rumo aos repectivos quartos.

Foi aí que sobreveio a verdadeira solidão, aquela em que nunca tinham pensado enquanto viviam envoltos numa nuvem de fama. A solidão que nunca teve espaço para se manifestar entre os fãs, as entrevistas, as fotografias e os autógrafos. A solidão que acaba por nos encontrar, por mais que nos escondamos.

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