Terra
Capítulo 156
Um grito interrompeu o silêncio da noite.
Um grito que viajou de módulo em módulo, de parede em parede, que desfez o sono de todos os habitantes da colónia. Um grito que saiu para o exterior, ressoou num dos satélites que pairavam no Universo e chegou a cada lar da Terra.
A Doutora foi a primeira a chegar à cama de Miss.
Durante alguns instantes, a organização não soube muito bem que câmaras ligar. Eram vários os corpos que se moviam em diferentes direções.
John foi o segundo a chegar ao quarto da modelo. Ajudou-a a sair da cama e acompanhou-a até à Sala Comum. Todos sabiam como transformar aquela divisão num bloco operatório improvisado. Andavam há várias semanas a ensaiar.
Frank apareceu imediatamente na sala. Também já levava uma mala com tudo o que era necessário, ou melhor, com tudo o que tinham disponível para uma situação que nem sequer estava prevista.
Miss deitou-se no sofá, que se transformou em cama, e o resto foi disposto à sua volta.
A Doutora estava preparada.
Frank estava preparado.
As câmaras estavam preparadas.
E até Miss, apesar de toda a dor, parecia estar preparada.
Mas… e o mundo? Estaria o mundo preparado?
Sim, talvez estivesse preparado para conhecer um sucesso, para assistir ao nascimento de um ser humano, para viver um dos acontecimentos mais importantes da História…, mas estaria preparado para assistir a um fracasso?
Eram muitas as complicações que podiam surgir. Nos treinos, tinham realizado simulacros de todo o tipo, mas nunca se pusera na mesa uma situação daquelas, simular o nascimento de um bebé. O parto poderia complicar-se, e ali não havia ambulâncias à porta, à espera, nem incubadoras, e muito menos uma unidade de neonatologia.
Ali, tudo tinha de correr bem à primeira, caso contrário, tudo correria mal.
Seria, além disso, um parto atípico, visto que, na maior parte dos países da Terra, há anos que ninguém — a menos que fosse por acidente — nascia de forma natural. Quase todos os partos eram programados: algo muito mais confortável e, claro, muito mais rentável.
Era uma das razões pelas quais quase não havia especialistas em partos naturais. Os médicos limitavam-se a picar, a anestesiar e a retirar o bebé. Posteriormente, o próprio hospital oferecia um vale de desconto para se recorrer à ala de cirurgia plástica. Nela, disfarçavam a cicatriz que eles próprios tinham feito.
Felizmente, e não foi por acaso, a Doutora, que se encontrava, nesse instante, diante de Miss, trabalhara durante muitos anos em regiões de África onde as mulheres ainda tinham os filhos de forma natural e era especialista nesse tipo de partos.
— Calma — aconselhava a Doutora. — Não te preocupes. Estive em lugares muito piores do que este, em verdadeiros infernos, e tudo acabou por correr bem. Pensa que, pelo menos, não temos ninguém lá fora com metralhadoras, não temos uma milícia ansiosa por levar as crianças para a guerra ou por matar os recém-nascidos. Em comparação com tudo o que vivi, isto é um luxo — dizia, para aliviar a tensão.
Miss não respondia.
Durante toda a transmissão, centenas de empresas farmacêuticas apareceram na parte inferior dos ecrãs. Tudo se vendia, em qualquer momento, em qualquer situação. Ninguém sabia quanto pagara o primeiro anunciante a aparecer logo que o bebé nascesse.
Miss gritava a intervalos regulares. Aos poucos, ia fazendo a dilatação, estava cada vez mais perto. Centenas de milhões de espectadores assistiam ao acontecimento.
— Vamos, agora! Faz força! — gritava a Doutora.
Nesse momento, apareceu em todos os ecrãs da Terra o seguinte texto: «Alertamos para o facto de as imagens seguintes poderem ferir a sensibilidade de alguns espectadores.»
Uma mensagem curiosa, porque há muito tempo não aparecia nos filmes violentos ou nos vídeos de lutas que constituíam material de visionamento habitual entre os adolescentes, nem mesmo da vez em que uma câmara gravou um grupo de jovens a deitar fogo a um sem-abrigo. A violência estava normalizada nas redes. Em contrapartida, o nascimento de um ser humano podia ferir suscetibilidades.
Uma das câmaras, situada na parte superior da parede, dirigiu o zoom para a vagina da mãe.
Um grito e outro e mais um.
E outro ainda e um «Faz força» e um «Vamos lá, o bebé já está quase».
E gritos, e uma mão a agarrar a de Frank com a intenção de lhe cravar as unhas, se necessário.
Em todos os ecrãs da Terra, uma pequena cabeça assomou entre as pernas de Miss. Os espectadores assistiam, atónitos, enquanto um bebé nascia de forma natural, com dor, com sofrimento, como se estivessem a ver algo que já só pertencia ao passado, algo mais próprio de bárbaros do que de seres humanos.
— Vamos, agora! Faz toda a força que conseguires agora!
Miss gritava e chorava de dor.
E o mundo sofria, e as pessoas choravam, e as mães tapavam os olhos aos filhos, e os próprios adultos cobriam os olhos com as mãos, deixando, contudo, uma pequena fresta por entre os dedos, para conseguirem ver.
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