Terra
Capítulo 1
Trinta anos antes…
Um carro velho desvia-se por um caminho de terra, para se perder no interior de um bosque. Um bosque com árvores tão altas e tão entrelaçadas, que a luz do dia mal consegue espreitar por entre os ramos.
O homem que o conduz permaneceu em silêncio durante todo o percurso, revendo mentalmente cada um dos passos que vai dar a partir desse momento. Está nervoso, ensaiou a situação muitas vezes, mas sempre sozinho.
Há já vários minutos que o rádio emite sons difusos, até que, ao entrar no bosque, emudeceu completamente: não há rede.
As duas crianças sentadas no banco de trás também vão caladas. Estão assustadas, porque não sabem para onde se dirigem nem para que serve a chave que trazem pendurada ao pescoço.
Depois de mais de dez minutos a circular pela lama, em silêncio, chegam a uma pequena clareira onde uma cabana de madeira os espera. Não há ali mais ninguém, apenas eles e a incerteza.
Os três saem do carro, e é o homem que, depois de duas tentativas, consegue abrir uma porta que parece não desejar convidados.
Os dois miúdos entram devagar, tentando habituar os olhos a uma escuridão que domina tudo. Em contrapartida, o homem dirige-se logo à pedra da lareira, retira de lá uns fósforos e acende uma vela.
Com palavras suaves, diz-lhes para se sentarem no sofá que se encontra ao seu lado; entretanto, com outro fósforo, tenta atear o lume.
A menina procura a mão do irmão, que é mais velho, e aperta-a com força.
— Calma, está tudo bem — sussurra-lhe ele ao ouvido.
Finalmente, a lareira está acesa.
O homem avança até ao fundo da divisão para ir buscar uma cadeira velha e uma caixa de madeira. Instala-se em frente ao sofá, diante deles.
Sorri.
E fala.
As crianças escutam.
Explica-lhes que vão participar num pequeno jogo, um jogo que nunca experimentaram. Tenta convencê-las de que será divertido.
Devagar, vai enumerando as regras.
Escutam sem dizer nada. Assentindo depois de cada frase, tentando assimilar cada uma das instruções. Por fim, quando termina, tocam com cuidado na chave que trazem pendurada ao pescoço.
O homem levanta-se, pousando a caixa de madeira no chão. Dirige-se para a lareira e aproxima as mãos do lume. Assim, daquele ponto e de costas para eles, volta a falar.
— Serão vocês a escolher o prémio… Mas não será um prémio imediato, será um prémio para o resto das vossas vidas.
Silêncio.
O homem agacha-se e esfrega as mãos, demasiado perto das chamas.
— Pensem naquilo que mais vos agradaria neste mundo, no que gostariam de alcançar quando fossem mais velhos. Seja o que for, se conseguirem terminar o jogo, prometo que farei os possíveis para que se torne realidade. Mas… não podem revelar o vosso desejo a ninguém: nem tu a ela, nem ela a ti; só eu o poderei saber. Será o nosso segredo.
Os dois miúdos olham um para o outro sem saber o que dizer, talvez por serem demasiado pequenos para uma decisão tão importante.
— Não há pressa, temos tempo…
Ambos sabem que se encontram num momento determinante das suas vidas. Se aprenderam alguma coisa durante a infância, foi que este homem que têm à sua frente cumpre aquilo que promete.
Depois de vários minutos, em que o único som que se ouve é o do estalar dos ramos na lareira, o rapazinho levanta-se, aproxima-se do corpo que permanece agachado frente ao lume e diz-lhe qualquer coisa ao ouvido. O homem assente e sorri. A criança também sorri.
A menina permanece calada no sofá. A julgar pela idade, poderia parecer demasiado nova para saber o que deseja. Poder-se-ia até pensar que não percebeu bem a pergunta… Mas não é assim: o que se passa foi que decidiu enfrentar o pai e procura mentalmente um desejo tão ousado quanto irrealizável. Por fim, depois de vários minutos a matutar, tem uma ideia e aproxima-se, a arrastar os pés. Agacha-se um pouco e sussurra-lhe o seu desejo ao ouvido.
— Mas… — protesta o homem, surpreendido.
— É este o meu desejo — replica a menina, com um sorriso que deixou de ser sincero há algum tempo.
As duas crianças voltam a sentar-se no sofá.
Passam-se alguns minutos. Silêncio.
O homem levanta-se, dá-lhes um beijo e, depois de confirmar disfarçadamente se a câmara que se encontra por cima da porta está ligada, abandona a cabana.
Os miúdos ficam ali, sozinhos, com a luz e o calor da lareira.
Fecha a porta à chave, dirige-se para o carro, liga o motor e afasta-se… mas não demasiado. O suficiente para que pensem que se foi embora, o necessário para, sem que eles saibam, conseguir ver o que se passará a seguir.
E espera.
E os minutos passam.
Dez.
Encolhe-se de frio dentro do carro.
Vinte.
O homem começa a ficar nervoso. Está tentado a sair para ver o que se está a passar, para perceber se estão a avançar no jogo.
Silêncio. Frio. Ouve-se um grito: o grito de uma menina. Um grito que percorre a cabana, o bosque, e que o atravessa, a ele próprio.
Sai do automóvel e corre o mais depressa possível em direção às crianças.
Foi este o princípio de tudo. Na realidade, também foi este o fim de tudo.
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Um ser que se habitua a tudo;
parece ser esta a melhor definição que posso dar
do Homem.
DOSTOIÉVSKI
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Numa época de logro universal,
dizer a verdade é um ato revolucionário.
GEORGE ORWELL
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