Terra
Capítulo 13
— Lembro-me das minhas origens… — continuou, quase num sussurro. — Quando olho para trás… Aqueles concursos tão intimistas… Fizemos coisas geniais. Primeiro, pequenas, com um orçamento muito reduzido… Lembro-me de que, já nessa altura, contratava amigos e conhecidos para fazerem de participantes… Nisso, distinguíamo-nos da concorrência: os nossos concursos eram divertidos porque os concorrentes eram falsos, estavam a representar. Batota? Sim, mas, enfim, o mais importante era entreter.
»Recordarei sempre com carinho a primeira vez que me deram uma oportunidade… Numa altura em que todos os concursos eram iguais, com perguntas e respostas, consegui inovar. Lembram-se do jogo das chaves? Foi o meu primeiro grande triunfo.
O jogo das chaves… Comecei a tremer. Fechei a mão direita com força, como tantas vezes fizera, na esperança vã de que, quando a abrisse, a cicatriz já ali não estivesse.
— Esse concurso foi o princípio de tudo: começou a entrar dinheiro, e o que é bom no dinheiro é permitir fazer algo maior. Criávamos programas cada vez melhores, mais originais, mais arriscados…
»Em dada altura, apercebemo-nos de que, quanto mais o concorrente sofria, mais audiências tínhamos, e foi como descobrir o melhor tesouro, pois o sofrimento podia ser sempre maior ou, pelo menos, diferente. Também percebemos que as pessoas adoravam violência, sexo, traições… por isso, acabou por ser inevitável surgir um concurso como aquele, um dos mais bem-sucedidos da História…
Interrompeu-se, apanhou um pouco de ar, pegou lentamente no copo e bebeu água.
Olhou para o público.
Aproximou-se do microfone.
— Sim, todos sabem do que estou a falar. Da Casa, é a isso que me refiro. Na verdade, a ideia surgiu uma noite, num bar. Eu estava com o meu grande amigo Dmitry a beber o penúltimo copo da noite e a ver o que as pessoas em volta faziam, quando ele me sugeriu a ideia de um concurso em que várias pessoas ficassem a viver numa casa cheia de câmaras que as gravariam dia e noite.
»Lembro-me de que fiquei calado, de copo na mão… e ainda me lembro da minha resposta, palavra por palavra. Era mesmo ingénuo!
»Disse-lhe: «Mas quem é que, no seu perfeito juízo, vai passar o tempo a assistir à vida de outras pessoas quando poderia estar a viver a sua?»
»E também me lembro da resposta dele, como se estivesse aqui, à minha frente: «Todas as pessoas que não têm vida», foi o que me disse.
»Nesse dia, o velho Dmitry deu-me uma lição. Com aquele concurso, percebi que havia muita gente, muitíssimas pessoas, sem vida própria, sem nada melhor com que se ocupar do que ver dez tipos a fazer figuras tristes dentro de uma casa.
»Confesso que pensei que aquilo fosse durar dois dias, mas acabei por perder a conta às temporadas. Além disso, claro, soubemos aproveitar o sucesso: reportagens para vender revistas que também éramos nós a publicar, entrevistas noutros programas que também pertenciam à nossa empresa…
O meu pai começou a tossir numa sala em silêncio total. Ninguém, absolutamente ninguém, dizia nada.
— Desculpem… — Respirou várias vezes, até recuperar o fôlego. — Aquele programa incitou-nos a ir um pouco mais longe. Foi o período do auge da minha criatividade: um concurso para eleger o divórcio mais elegante e a separação mais traumática; infidelidades provocadas de propósito com atores muito atraentes, com a intenção de destruir casamentos…
»Depois, demos mais um passo, com o famoso Não quero este filho. Lembram-se? Um programa de abortos em direto, onde as mães se juntavam numa casa cheia de câmaras, para decidir o que faziam com as gravidezes não desejadas… e, ali, no plateau, tomavam a decisão, dependendo da votação do público.
»Foi então que começaram os grandes ataques à minha pessoa: as associações feministas queriam matar-me! Que hipocrisia! Mas a maioria das concorrentes engravidava apenas para participar no programa… E essas associações de mulheres diziam que o monstro era eu.
Silêncio de novo.
Começou a tremer ligeiramente.
Respirou fundo várias vezes.
Continuou.
— Depois veio o famoso Vou ou fico, o primeiro programa de suicídios em direto. O primeiro suicídio ao vivo. Foi outro grande momento da indústria televisiva. Ninguém fora tão longe.
»As pessoas enlouqueciam, ficavam nos bares, havia reuniões familiares em casa para ver aquele primeiro homem que perdera tudo atirar-se do alto de um edifício. Ninguém o obrigara, a lei estava do nosso lado, ele assinara um contrato.
»É verdade que o casting do programa foi um pouco estranho: pessoas arruinadas, divorciados em plena depressão, mães que tinham perdido os filhos… Sim, reconheço, se se pensar friamente no assunto, é demolidor… E se vos disser que o primeiro concurso desse programa foi o mais visto a nível mundial, até hoje? Quem é, afinal, o monstro?
Silêncio.
Todos vimos um pequeno sorriso desenhar-se-lhe no rosto.
— Monstro, demónio, depravado, imoral… sim, foi o que me chamaram em muitos órgãos de comunicação. Mas… como chamaríamos, então, a todas as pessoas que ficaram a ver aquele homem lançar-se no vazio? E a todos os que fizeram negócio à sua custa? Quantos autocolantes, canecas, crachás… se venderam com o seu nome? Como chamaríamos a todos os que compraram uma T-shirt onde se lia: eu estava lá quando o ricky se atirou?
Descansou, inspirou…
O seu corpo tremia cada vez mais, como se o esqueleto que o sustinha estivesse prestes a ceder.
— No entanto, apesar de tudo o que vos contei, apesar de só termos dado às pessoas aquilo que elas pediam, reconheço que, durante todos estes anos, aconteceram coisas que poderíamos ter evitado, que deveríamos ter evitado… É esse o preço… Quando se arrisca, não é possível evitar os efeitos colaterais.
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