Terra
Capítulo 118
Para surpresa do público, as primeiras imagens que foram transmitidas não correspondiam ao interior da colónia, mas ao exterior.
As câmaras detetaram movimento na área envolvente da colónia. A um quilómetro exato, a primeira câmara exterior captou a presença do Rover. Nesse momento, as comunicações foram cortadas. Passados poucos minutos, a câmara que se encontrava precisamente por cima da porta ativa-se: capta a sombra de um astronauta a aproximar-se a toda a pressa e a tapar a lente com uma mão.
A gravação seguinte é do interior da colónia, de uma câmara lateral que só consegue gravar dois segundos. O homem detém-se à entrada e, depois de uns momentos de hesitação, entra para o corredor. São, então, emitidas as imagens que já todos conhecem. Evita-se passar de novo a cena da violação. Finalmente, mostram-se as imagens da fuga. É nesse ponto que se regista um novo corte. As câmaras exteriores ficaram inutilizadas.
Durante alguns minutos, o mundo ficou em silêncio. Ninguém pensara nos ocupantes da Centinel.
Nesse mesmo instante, o Jardineiro desatou a chorar.
O Mãozinhas ficou imóvel, a observar o ecrã, durante vários minutos. Finalmente, olhou para o resto dos que estavam presentes na sala.
— Eu mato-o. Juro que o mato — foi a única coisa que lhe ocorreu dizer.
Depois da projeção, apareceu um apresentador com um comunicado oficial.
Aquilo que acabamos de ver foi um choque para todos. Nunca esperámos que um dos homens
mais destacados da História pudesse fazer algo semelhante. Descobrimos que, graças a um controlo remoto, conseguiu desligar as câmaras durante o intervalo de tempo necessário para que não fosse identificado. Mas cometeu um erro: as câmaras continuam sempre a gravar em segundo plano, mesmo que não transmitam, por isso, conseguimos recuperar os fragmentos que nos ajudaram a deslindar o sucedido.
Também pudemos aceder às gravações das câmaras da Centinel e detetámos que,
precisamente às 00h34, hora de Marte, um dos três camarotes estava vazio, o de Marcus Z. N. Os seus dois companheiros continuavam a dormir.
Fica, desta forma, provada a inocência do concorrente Frank Smith, a quem julgo que toda a
comunidade deve um pedido de desculpas.
A organização está a deliberar que sanção aplicar ao astronauta e capitão da missão, Marcus
Z. N., e como conseguir que seja cumprida.
O delito é muito grave, mas em Marte não há prisão, por isso, temos de ponderar alternativas
diferentes. Logo que se tenha tomado uma decisão, torná-la-emos pública.
Reiteramos o nosso pedido de desculpas pelo ocorrido, em primeiro lugar a Miss e, em
segundo, a todos os que tiveram de presenciar imagens e uma situação tão terríveis.
E agora?
Era esta a pergunta que toda a gente fazia.
Como se punia alguém que se encontrava a tal distância? Como se punia uma das três pessoas que, em caso de infração grave, deveria assumir o controlo para tentar salvar a vida de toda a comunidade?
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