Terra
Capítulo 179
Chegámos à penúltima sala: TERRA.
Uma divisão exclusivamente dedicada ao único ser humano que nascera fora da Terra, a menina com os olhos mais bonitos do mundo, como a apelidaram num dos principais programas de televisão.
Logo que entrámos, observámos um ecrã gigante que mostrava um primeiro plano do seu rosto. Tinham-lhe intensificado a cor dos olhos, um azul e o outro verde. Um rosto que praticamente toda a Humanidade conhecia.
Por baixo da imagem, havia vários painéis com informação básica sobre a menina: a pequena biografia de uma vida que não ultrapassara um ano e meio.
Na parede oposta, outro ecrã reproduzia, de forma cíclica, vídeos que mostravam o seu nascimento, as suas primeiras lágrimas, os seus primeiros passos, as suas primeiras palavras… todos os seus primeiros momentos, que, em alguns casos, foram também os últimos.
Na parte central, havia uma vitrina com cópias dos brinquedos que, de forma artesanal, o resto dos habitantes lhe tinham fabricado na colónia.
Saímos dali com o estômago apertado. Apesar do tempo decorrido, a perda daquela criança não fora fácil de ultrapassar, para ninguém, e tenho de reconhecer que, para mim, também não. Enquanto estivemos naquela sala, chorei, mas fi-lo sem lágrimas, sem alterações no rosto, porque também se pode chorar por dentro, em silêncio.
Dirigimo-nos à última sala. Não havia nada afixado. Era uma divisão completamente branca, praticamente vazia, com centenas de velas em torno de um pequeno altar onde tinham disposto oito coroas de flores e uma chucha.
Atravessámo-la em silêncio e saímos em direção a um pequeno átrio.
— Bem, agora, vamos ver a sala que vos interessa — disse Jónas, praticamente em sussurros.
Continuámos a andar por um longo corredor de gelo.
Chegámos a um elevador.
— A sala que vamos ver não fica por baixo do gelo, mas acima dele.
Quando nos encontrámos no piso superior, caminhámos alguns metros até ficarmos diante de uma porta completamente branca, uma porta que tinha um símbolo, o mesmo que estava desenhado no nosso porta-chaves.
— Apesar de eu ter a minha própria chave, para entrar aqui, devem utilizar a vossa — disse-nos, a sorrir.
O meu irmão enfiou a mão no bolso e, com uma expressão alegre, mostrou o porta-chaves a Jónas.
— Mas… a chave não é essa — disse-nos.
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