Terra

Eloy Moreno · Capítulo 50 de 205

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Terra

Capítulo 49

Não fôramos até ali para começar o jogo, mas para o continuar. Era evidente que devíamos recomeçar no ponto em que tínhamos ficado da última vez: na lareira. Ambos nos aproximámos lentamente do local em que tudo começou.

Abri a palma da mão e olhei para a marca que a atravessava até ao interior do pulso, o sítio exato em que nascem os pensamentos do suicida. Nesse dia, estive prestes a morrer, perdi muito sangue; também perdi muito mais coisas. Alguns anos depois, tatuei um trevo preto, para tentar esconder uma cicatriz que só me trazia recordações do passado.

— Nel, se quiseres, eu faço isso — disse o meu irmão.

— Nã… não… Tenho de ser eu…

Tentei esquecer-me de Nellyne, de mim própria, em criança, e, sobretudo, tentei esquecer-me dele. Concentrei-me em ser a jornalista que estivera em muitas situações perigosas, a mulher que não hesitara em arriscar a vida para conseguir uma notícia. Não ia ser uma recordação infantil a derrotar-me.

Agachei-me, inspirei e, tal como uns anos antes, enfiei a mão para levantar o guarda-fogo com os dedos. No entanto, desta vez, só a introduzi completamente ao perceber que depois seria capaz de a retirar, desta vez, a lareira não estava acesa e a grade não estava incandescente e, naturalmente, desta vez, não tinha dez anos.

Levantei-a e encontrei uma caixa de madeira, decerto a mesma que há uns anos ali estivera, aquela que nunca chegámos a abrir, a que deixámos abandonada quando o meu pai entrou a correr na cabana para me levar para o hospital.

Peguei na caixa e deixei-a em cima da mesa.

Ficámos os dois a olhar para aquele objeto como quem descobre um tesouro da infância. Estava fechada com um cadeado, e já tínhamos utilizado uma chave. Era evidente a quem cabia abri-la.

Introduzi a minha chave na pequena fechadura, dei-lhe uma volta, abriu. Lentamente, levantei a tampa.

Nenhum dos dois sabia o que ia encontrar: talvez uma pista, alguma adivinha, um teste… O que nunca imaginámos era que lá dentro se encontraria o nosso pai em estado puro.

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