Terra
Capítulo 90
Chegamos à universidade uma hora antes do previsto. Não tínhamos avisado ninguém, mas, habitualmente, o nosso apelido abria as portas de qualquer lugar. Fizeram um telefonema e, em apenas alguns minutos, já nos acompanhavam ao gabinete do reitor.
— Bom dia — disse o homem, enquanto nos apertava a mão. — É uma verdadeira honra recebê-los. Entrem, por favor, e sentem-se.
Sentamo-nos mesmo à sua frente, numa divisão pequena, mas elegantemente decorada.
— Não tínhamos conhecimento da vossa visita, caso contrário, poderíamos ter-vos preparado qualquer coisa. Podíamos ter feito algo especial…
— Não se preocupe. Na verdade, a visita será curta. Estamos apenas a resolver uns assuntos pendentes do nosso pai — intervim.
— Lamento imenso o ocorrido. Foi um homem incrível. Foi tão… Nem sei como expressá-lo. Vê-lo ali, em direto… Lamento imenso.
— Obrigado — respondeu o meu irmão.
— Ficámos sem um grande homem.
Mergulhámos no silêncio.
— Os senhores sabem…
— Queríamos fazer-lhe algumas perguntas sobre uma das vossas alunas, uma muito especial.
O homem olhou para nós os dois.
— Suponho que se referem à Andrea, certo?
— Sim, isso mesmo. Mas, mais do que dela, queríamos tratar de um assunto de natureza financeira — interveio o meu irmão, tentando chegar ao tema da chave através das transferências. — Como deve saber, era eu quem tratava de quase todas as contas da organização do meu pai. Agora, que ele morreu, estamos a rever todos os movimentos, todos os contributos…
— Compreendo — respondeu o reitor.
— Ao analisar os dados referentes a esta universidade, demo-nos conta de que há várias transferências em nome da Andrea, e não sabemos muito bem o motivo das mesmas.
— Ora, então… como já devem saber, o vosso pai doava muito dinheiro à comunidade educativa, sobretudo às universidades. Não apenas a esta, naturalmente, mas, como calculam, tratava-se de acordos privados, entre nós e o vosso pai.
— Sim, mas compreenda também que agora sou eu o responsável pela fundação e tenho de controlar cada dólar que é gasto. Ora, no caso da Andrea, digamos que o dinheiro transferido era muito mais do que o necessário.
— Já lhe disse, tínhamos um acordo privado para que a fundação patrocinasse despesas de alunos… digamos, especiais.
— Especiais?
— Sim, especiais. Não posso revelar mais nada.
— Pois eu acho que deverá fornecer-nos mais alguma informação — intervim, perante a surpresa do reitor —, caso contrário, teremos de cancelar as transferências pendentes, que, ao que sei, se destinam a outros alunos.
Nesse momento, algo no seu rosto mudou. Soube que o derrotara. Eram muitos anos de experiência a fazer interrogatórios. Havia sempre dois tipos de pessoas, aquelas a quem, pelo tato e pela paciência, se conseguia tirar tudo, e as outras, as que exigiam menos paciência. Este homem enquadrava-se na última categoria.
— Digam-me o que querem saber… — hesitou, fazendo que não com a cabeça.
— A verdade sobre a Andrea — afirmei.
— A verdade… — repetiu, enquanto se levantava da cadeira e se punha de costas para nós, a olhar pela janela. — E o que fazemos quando a verdade não nos agrada? O que fazemos se, depois de a conhecermos, desejamos não ter ficado a saber qual é?
«A verdade sobre a Andrea…», disse aquele homem para consigo. «Nem eu sei o poder que existe naquela mente.»
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