Terra

Eloy Moreno · Capítulo 23 de 205

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Terra

Capítulo 22

A Primeira Expedição. Centinel

 

Foi o acontecimento mais importante da História recente: pela primeira vez, um ser humano ia pôr os pés num planeta que não a Terra.

O programa teve audiências extraordinárias: os preparativos, as experimentações tecnológicas, a seleção dos três astronautas… tudo era acompanhado com verdadeira devoção por milhões de pessoas. Talvez por isso, quando, depois de seis meses de viagem, o primeiro ser humano caminhou na superfície de Marte, nasceu um sentimento de orgulho nunca visto, sentimento esse que percorreu todo o planeta e chegou a cada casa, a cada ser humano.

Eram três os rostos visíveis da Centinel: dois homens e uma mulher, três pessoas que já faziam parte da História, três seres humanos que, a partir desse momento, seriam tratados como heróis. E assim foi, pelo menos no início, porque, depois, aconteceu algo que condenaria um deles ao ódio mundial e, acima de tudo, ao esquecimento.

Três astronautas tinham feito uma viagem sem regresso, pois, de momento, não se dispunha da tecnologia necessária para conseguir que uma nave espacial descolasse de Marte. Os próprios referiram que, talvez, num futuro muito, muito distante, pudessem criar toda a infraestrutura para fabricar os propulsores no local, para obter o combustível necessário, para controlar o lançamento a nível informático… mas, por enquanto, a ideia de regressar era uma utopia.

 

*

Durante as semanas que se seguiram, cada pequena vivência, cada descoberta se transformava em tema de conversa na Terra: tudo era novo e tudo se fazia pela primeira vez.

Através de várias câmaras, era possível observar o dia a dia dos astronautas e o progresso na montagem das várias partes daquele que seria o novo lar dos oito escolhidos: os módulos residenciais, a estufa, os painéis solares…

De vez em quando, impresso numa das paredes da nave espacial, numa parte do fato dos astronautas, aparecia o símbolo de uma marca de joias que fabricava uns anéis muito especiais. Eram três letras, duas minúsculas e uma maiúscula, que formavam a palavra eXo, mas com um X que envolvia simultaneamente as duas vogais. De início, era apenas mais uma marca entre todos os patrocinadores do projeto, por isso, não chamou a atenção de quase ninguém.

Nessa missão, tudo era gravado, tudo ficava registado para a História: desde as tarefas atribuídas aos robôs até aos pormenores da rotina diária dos astronautas, como irem à casa de banho ou os seus exercícios de ginástica.

Mas essa primeira expedição não era um reality show, era uma missão científica, pelo que, aos poucos, deixaram de se transmitir imagens da vida quotidiana e mostrava-se apenas aquilo que se relacionava com a construção e preparação das instalações para os oito civis escolhidos.

E, pelo facto de não haver paixão, sexo, nem violência, as audiências do programa começaram a baixar. (Quem ia perder tempo a ver três das mentes mais brilhantes da Terra a construir uma base em Marte, quando havia outros canais a revelar o novo romance da celebrity do momento?

Foi então que a principal empresa organizadora decidiu mudar de tática e concentrar-se na outra expedição, na qual partiriam mais tarde pessoas comuns, pessoas da rua.

Foi esse o motivo do grande sucesso que, depois, sobreveio: a próxima pessoa a viver em Marte podia ser o nosso melhor amigo, o nosso médico, a professora da nossa filha, o mecânico que nos arranja o carro, a vizinha que cumprimentamos no elevador, a desconhecida com quem nos cruzamos todos os dias no autocarro… Qualquer pessoa podia fazer parte do grupo selecionado, e isso, a democratização da colonização de Marte, podia — e, sobretudo, devia — gerar muito dinheiro, muito dinheiro. Era a única solução para que todo o projeto no seu conjunto, a Centinel e o reality, pudesse resultar.

O que nunca se tornou público foi a existência de uma terceira parte do projeto batizada com nome eXo. A parte que realmente dava sentido a tudo e que, no entanto, também corrompia tudo.

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