Terra
Capítulo 53
Afastei o olhar.
O meu desejo, passados tantos anos.
Naquele momento, não percebi quase nada do que estava a ler. Respirei e continuei a carta.
Mas… e se esse desejo se concretizar? Que acontecerá então? Que acontecerá quando
acabares o jogo e tiveres de tomar uma decisão para o poderes satisfazer?
Talvez não tenhas tido consciência de que pedir algo semelhante implica ter uma opinião
determinada acerca do ser humano, algo sobre o qual nunca concordámos.
É verdade que eu e tu estivemos tão longe como o inverno do verão, mas, quem sabe, talvez
possamos ter-nos encontrado num dia de outono, ou viver, nem que seja por um instante apenas, na primavera.
Conheces a minha opinião sobre as pessoas: não passamos de um vírus destinado a destruir
a Terra, e talvez eu seja um exemplo perfeito disso mesmo. Em contrapartida, tu, Nelly, tens lutado a vida inteira contra o lado negro das pessoas, tentando que o mundo seja melhor, mais justo. Conseguiste? Serviu-te de alguma coisa?
Enquanto houver leis e alguém que as faça cumprir, pode ser que se consiga manter o
sistema, mas, no momento em que, por qualquer circunstância, esse sistema desaparece, surge a violência: saques, assassinatos, violações… e o ser humano também é isso.
Se fosse preciso escolher, se tivesses de escolher quem salvar e quem não salvar, serias justa,
Nel? Saberias distinguir um ser humano de outro?
Talvez sejam demasiadas perguntas para uma só carta. Mas não te preocupes, as respostas
surgirão à medida que te aproximares do fim do jogo, quando tiveres de escolher entre dizer a verdade ou escondê-la para que a vida possa correr. E vais ter de o fazer, garanto-te.
Despede-se o teu pai, esse a quem nunca mais voltaste a chamar papá.
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