Terra
Capítulo 149
Os meses que se seguiram foram, sem dúvida, os mais felizes da colónia. Aquele bebé foi como a recompensa que toda a gente espera em algum momento da vida; chegou na altura certa, para salvar uma minissociedade que fora perdendo a alegria, inclusive a de continuar a existir.
Todos os elementos da colónia fizeram os impossíveis para que a coisa corresse bem; tinham consciência da grande probabilidade de o bebé nascer com malformações, problemas de saúde ou, no pior dos casos, morto.
Felizmente, havia vários medicamentos que podiam ajudar: vitaminas, ferro e alguns nutrientes essenciais para uma gravidez.
Nunca tinham sido cientificamente analisadas as repercussões que o tipo de comida que consumiam poderia ter num feto. Por isso, da Terra, um grupo de médicos e nutricionistas analisou pormenorizadamente cada um dos alimentos que Miss ia consumir a partir desse momento, para lhe indicar os melhores e aqueles que nem deveria provar.
A gravidez conseguiu devolver a alegria inicial ao grupo: já quase não havia discussões, tudo era partilhado, e, de vez em quando, havia encontros sexuais entre a Doutora e o militar; no entanto, utilizaram os preservativos disponíveis. Na verdade, sempre os houvera, mas os concorrentes partiram do pressuposto de que estavam esterilizados e de que eram saudáveis, pelo que ninguém pensou em fazer uso deles. Até à gravidez de Miss, claro. Parecia que a alegria voltava àquela pequena colmeia de vidas.
Mas nem sempre foi uma felicidade constante, pelo menos, para Miss, que tinha momentos em que parecia ir abaixo, momentos em que pensava que tudo podia correr mal, que a criança podia nascer morta ou disforme, que em Marte não havia hospitais aos quais recorrer, que ela própria também podia morrer no parto…
Felizmente, as redes sociais souberam agir nesses momentos de fragilidade e encarregaram-se de dar uma resposta positiva interplanetária. À menor recaída, milhões de pessoas enviavam mensagens de apoio a Miss.
Do outro lado, estavam os haters, pessoas que, nas suas mensagens, desejavam que a criança nascesse morta e que todo o programa fracassasse. Pessoas que, na vida real, certamente, nunca seriam capazes de dizer algo semelhante, mas que, sob o anonimato das redes, se transformavam em monstros.
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