Terra
Capítulo 161
Dois dias depois do nascimento de Terra, um homem idoso e uma mulher jovem dirigem-se a um dos seus lugares preferidos na Islândia: duas pequenas piscinas naturais situadas no Norte da ilha, no meio do nada; na encosta de uma silenciosa montanha e a alguns metros de um mar que açoita as rochas com força. Um lugar com um nome complicado de pronunciar por qualquer estrangeiro: Grettislaug.
Chegam os dois num grande todo-o-terreno. Dirigem-se à cabina mais próxima do café, ainda fechada por essa altura. Ela, como sempre, é mais rápida. Depois de se encontrar de fato de banho, vê-se ao espelho, hesitando entre pôr a peruca que traz no bolso ou deixar o cabelo solto, o seu.
A mulher tem a intenção de esperar por ele, mas está frio, muito frio. Por isso, corre em direção às piscinas: há duas, separadas por um grande muro de pedra. Sem pensar muito, escolhe a que fica mais próximo do mar. A temperatura exterior é de dois graus, mas, em contrapartida, a água encontra-se a cerca de quarenta. Introduz-se lentamente nela, tentando habituar-se ao contraste, à espera de que o homem, muito menos ágil e bastante mais gordo, a alcance.
Passados alguns minutos, vê-o chegar de calções de banho, com uma toalha na mão e a bufar, como se a cada passo a vida se lhe esvaísse um pouco. Enfia-se desajeitadamente na piscina. «Hoje, ainda não está bêbedo», pensa ela.
Sentam-se um ao lado do outro. E é então que o homem se apercebe de que ela não traz peruca.
— Querida, hoje também não a puseste… — recrimina-a, de uma forma terna.
— Mas quem vai aparecer aqui a estas horas? — responde ela, virando a cara.
— Quem sabe? — protesta, mas com cada vez menos insistência, como se estivesse cansado de discutir sobre a mesma coisa, dia após dia.
Ficam em silêncio.
Ele, de olhos fechados, deleita-se com o ambiente envolvente.
Mais silêncio… até ela o quebrar.
— Já não aguento mais! Estou farta, farta de ter de me esconder e de toda a gente dizer que sou a tua prostituta! — grita-lhe.
Fitam-se, olhos nos olhos. O homem suspira. Ela aproxima-se dele, abraça-o. Volta a falar.
— Voltaste a contactar com ele? — pergunta.
— Depois daquilo de ontem? Não, não vale a pena. Deixou tudo claro, muito claro: jurou que me matava, e a ti também.
— Disparates — responde ela, enquanto se afasta lentamente para o outro lado da piscina.
— Não são disparates. Este homem cumpre as suas promessas.
— Não me digas que agora vais ter medo, com todo o teu dinheiro, com todo o teu poder… — replica, sem o olhar.
O homem não diz nada. Como sempre, prefere não discutir. O único som que os rodeia é o das ondas a quebrar, a escassos metros.
Passam vários minutos assim, em silêncio, um em cada extremidade da piscina, ela a olhar para fora, ele a olhar para as costas dela.
E é precisamente nesse momento que ouvem o som de um carro. Um todo-o-terreno acaba de estacionar mesmo ao lado do deles. Do mesmo, sai um casal jovem. Vão a brincar um com o outro. Dirigem-se à cabina.
— É muito cedo… É raro haver alguém por aqui a estas horas. Talvez venham tomar banho — diz o homem, assustado.
— Devem ser turistas, e claro que devem vir tomar banho, são um casal… Como eu e tu, há algum tempo, não? — responde ela, franzindo as pálpebras.
*
A jovem sai da cabina e, mal sente o frio lá fora, começa a correr em direção a uma das piscinas. Vai tapada com uma toalha, leva um gorro de lã azul e um biquíni preto.
O rapaz, a rir, persegue-a, gravando os seus movimentos com o telemóvel.
Entram na piscina devagar, tentando habituar-se ao calor de uma água que contrasta com um exterior absolutamente gelado.
— Nem repararam em nós — diz a mulher, enquanto se aproxima de novo dele, se põe ao seu lado e o rodeia com os braços.
E ali, num canto perdido do Norte da Islândia, a ilha guarda duas histórias muito diferentes a escassos metros de distância.
Numa das piscinas, o casal recém-chegado faz amor em silêncio, entre sorrisos e carícias — um momento para mais tarde recordar.
Na outra, o homem e a mulher dão a mão. Ele chora porque sabe que vai tomar uma decisão que lhes pode custar a vida; ela tenta não pensar em nada.
Os minutos passam.
Uma hora depois, o casal jovem, entre risos e sussurros, vai-se embora. Quando passam à frente deles, cumprimentam-nos com um simples adeus.
E ali fica o outro casal, o estranho, aquele que tem de dar um rumo à sua vida.
— Amanhã — diz o homem.
— Amanhã? — responde ela, surpreendida.
— Sim, amanhã vamos ter com ela e conto-lhe tudo.
— A sério? — grita a mulher, rejubilando de alegria.
E dá saltos dentro de água e sorri e beija-o e abraça-o. Abraça com força um homem que será feliz pela última vez.
— Não vai correr bem… — sussurra para consigo.
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