Terra

Eloy Moreno · Capítulo 159 de 205

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Terra

Capítulo 161

Dois dias depois do nascimento de Terra, um homem idoso e uma mulher jovem dirigem-se a um dos seus lugares preferidos na Islândia: duas pequenas piscinas naturais situadas no Norte da ilha, no meio do nada; na encosta de uma silenciosa montanha e a alguns metros de um mar que açoita as rochas com força. Um lugar com um nome complicado de pronunciar por qualquer estrangeiro: Grettislaug.

Chegam os dois num grande todo-o-terreno. Dirigem-se à cabina mais próxima do café, ainda fechada por essa altura. Ela, como sempre, é mais rápida. Depois de se encontrar de fato de banho, vê-se ao espelho, hesitando entre pôr a peruca que traz no bolso ou deixar o cabelo solto, o seu.

A mulher tem a intenção de esperar por ele, mas está frio, muito frio. Por isso, corre em direção às piscinas: há duas, separadas por um grande muro de pedra. Sem pensar muito, escolhe a que fica mais próximo do mar. A temperatura exterior é de dois graus, mas, em contrapartida, a água encontra-se a cerca de quarenta. Introduz-se lentamente nela, tentando habituar-se ao contraste, à espera de que o homem, muito menos ágil e bastante mais gordo, a alcance.

Passados alguns minutos, vê-o chegar de calções de banho, com uma toalha na mão e a bufar, como se a cada passo a vida se lhe esvaísse um pouco. Enfia-se desajeitadamente na piscina. «Hoje, ainda não está bêbedo», pensa ela.

Sentam-se um ao lado do outro. E é então que o homem se apercebe de que ela não traz peruca.

— Querida, hoje também não a puseste… — recrimina-a, de uma forma terna.

— Mas quem vai aparecer aqui a estas horas? — responde ela, virando a cara.

— Quem sabe? — protesta, mas com cada vez menos insistência, como se estivesse cansado de discutir sobre a mesma coisa, dia após dia.

Ficam em silêncio.

Ele, de olhos fechados, deleita-se com o ambiente envolvente.

Mais silêncio… até ela o quebrar.

— Já não aguento mais! Estou farta, farta de ter de me esconder e de toda a gente dizer que sou a tua prostituta! — grita-lhe.

Fitam-se, olhos nos olhos. O homem suspira. Ela aproxima-se dele, abraça-o. Volta a falar.

— Voltaste a contactar com ele? — pergunta.

— Depois daquilo de ontem? Não, não vale a pena. Deixou tudo claro, muito claro: jurou que me matava, e a ti também.

— Disparates — responde ela, enquanto se afasta lentamente para o outro lado da piscina.

— Não são disparates. Este homem cumpre as suas promessas.

— Não me digas que agora vais ter medo, com todo o teu dinheiro, com todo o teu poder… — replica, sem o olhar.

O homem não diz nada. Como sempre, prefere não discutir. O único som que os rodeia é o das ondas a quebrar, a escassos metros.

Passam vários minutos assim, em silêncio, um em cada extremidade da piscina, ela a olhar para fora, ele a olhar para as costas dela.

E é precisamente nesse momento que ouvem o som de um carro. Um todo-o-terreno acaba de estacionar mesmo ao lado do deles. Do mesmo, sai um casal jovem. Vão a brincar um com o outro. Dirigem-se à cabina.

— É muito cedo… É raro haver alguém por aqui a estas horas. Talvez venham tomar banho — diz o homem, assustado.

— Devem ser turistas, e claro que devem vir tomar banho, são um casal… Como eu e tu, há algum tempo, não? — responde ela, franzindo as pálpebras.

 

*

 

A jovem sai da cabina e, mal sente o frio lá fora, começa a correr em direção a uma das piscinas. Vai tapada com uma toalha, leva um gorro de lã azul e um biquíni preto.

O rapaz, a rir, persegue-a, gravando os seus movimentos com o telemóvel.

Entram na piscina devagar, tentando habituar-se ao calor de uma água que contrasta com um exterior absolutamente gelado.

— Nem repararam em nós — diz a mulher, enquanto se aproxima de novo dele, se põe ao seu lado e o rodeia com os braços.

E ali, num canto perdido do Norte da Islândia, a ilha guarda duas histórias muito diferentes a escassos metros de distância.

Numa das piscinas, o casal recém-chegado faz amor em silêncio, entre sorrisos e carícias — um momento para mais tarde recordar.

Na outra, o homem e a mulher dão a mão. Ele chora porque sabe que vai tomar uma decisão que lhes pode custar a vida; ela tenta não pensar em nada.

Os minutos passam.

Uma hora depois, o casal jovem, entre risos e sussurros, vai-se embora. Quando passam à frente deles, cumprimentam-nos com um simples adeus.

E ali fica o outro casal, o estranho, aquele que tem de dar um rumo à sua vida.

— Amanhã — diz o homem.

— Amanhã? — responde ela, surpreendida.

— Sim, amanhã vamos ter com ela e conto-lhe tudo.

— A sério? — grita a mulher, rejubilando de alegria.

E dá saltos dentro de água e sorri e beija-o e abraça-o. Abraça com força um homem que será feliz pela última vez.

— Não vai correr bem… — sussurra para consigo.

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