Terra

Eloy Moreno · Capítulo 108 de 205

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Terra

Capítulo 108

— Fala comigo… O que se passa? — pergunta, perante o olhar atento de milhões de pessoas, que sobem o volume dos seus dispositivos.

Mas não há resposta, apenas silêncio no interior de um abraço que Miss deseja que nunca acabe. Busca ali, no corpo da Doutora, o caminho que lhe falta desde que chegou a Marte, não de quem procura sexo, mas de quem oferece amor sem receber nada em troca.

— Conta-me o que se passou — sussurra-lhe, de novo, ao mesmo tempo que os dois rostos se afastam e ficam frente a frente, à distância de uma respiração.

E, enquanto a Doutora lhe afasta suavemente o cabelo da cara e tenta limpar-lhe as lágrimas do rosto, os lábios de Miss abrem-se para deixar escapar uma frase que arrasta dor em cada palavra.

— Violaram-me.

Sem mais dizer, como um animal ferido, volta a afundar o corpo nos braços da Doutora. Permanecem assim, unidas, «durante todo o tempo que precisares», pensa a Doutora. «Nunca será suficiente», pensa Miss.

— Vi nas redes sociais — diz-lhe ao ouvido. — E parecia que tinhas uma visita, como das outras vezes, que tinha sido bom. Na verdade, diziam que foi mais intenso do que nunca. — E é então que a Doutora se apercebe do que aconteceu.

Miss continua a chorar.

— Quem foi? — pergunta a Doutora, em voz baixa.

Miss afasta-se lentamente dela e, entre lágrimas, dor e saliva, responde:

— Nenhum dos dois, disso tenho a certeza. Conheço os seus corpos, o seu tato, o seu cheiro… Foi outro. Quando estava ali, debaixo dos lençóis, com a excitação do momento, não me apercebi, mas, enquanto ele me… nesse momento, reparei em algo estranho e gritei.

— E ele tapou-te a boca.

— Sim… foi… — continua a chorar.

A Doutora deixa-a desabafar, libertar toda a dor que tem dentro de si. Deixa passar vários minutos até à pergunta seguinte.

— Mas, então, quem é? Só duas hipóteses.

— Acho que não foi o militar… — sussurra. — É demasiado grande. Acho que teria notado, quando se pusesse em cima de mim.

— Pois… então resta apenas uma opção. O Frank?

— Mas o Frank… — responde uma mulher mergulhada na dor, não a física, mas a outra, a que nos destrói quando nos lembramos que nos obrigaram a fazer algo que não queríamos, a que nos recorda que nos roubaram aquilo que temos de mais precioso: a nossa intimidade… — Porquê? Porque haveria de fazer algo semelhante?

— Não sei, não sei… — responde a Doutora, tentando encontrar uma explicação.

— Não compreendo — balbucia entre lágrimas. — Não compreendo… Fugi da Terra precisamente por isso, porque me sentia um objeto, porque cometi o erro de aparecer naquela revista, porque, depois disso, alguns homens me obrigaram a fazer coisas horríveis… Arrependi-me mil vezes, mas já ninguém me levava a sério, e transformei-me numa boneca com que se podia ter prazer e que depois se descartava…

Respira.

— Não sou uma boneca, sou uma pessoa… por isso me pareceu boa ideia vir para cá, porque pensei que íamos começar do zero, num lugar onde homens e mulheres fossem iguais, um lugar onde houvesse liberdade, onde pudesse viver sem medo.

Ficam em silêncio, abraçadas uma à outra.

Minutos antes, enquanto as duas mulheres permaneciam unidas, já as redes sociais tinham ditado a sentença.

Milhões de mensagens de ódio inundam a Internet. Todas têm um objetivo comum, todas incluem um dos seguintes hashtags: #Frankculpado, #Frankviolador, #morteaoFrank. Não há provas, mas também não há dúvidas. A sentença é clara: culpado.

Talvez o melhor que poderia ter acontecido a Frank nesse momento fosse estar longe da Terra, caso contrário, algum louco não demoraria mais de uma hora a localizá-lo e a dar-lhe um tiro. Havia muitos antecedentes. Não era a primeira vez que as redes sociais tinham ditado a sentença e que um desequilibrado a executara.

Em apenas alguns minutos, várias associações feministas organizaram-se para realizar protestos nas principais capitais do mundo. Todas elas pediam um castigo exemplar, que, em muitos casos, incluía a morte.

A Doutora e Miss não tinham tido consciência de que cada uma das suas palavras, com o atraso habitual, já tinha chegado à Terra e regressado à colónia. Não tinham consciência de que as mensagens de ódio estavam a aparecer, nesse mesmo instante, nos dispositivos do resto dos habitantes da colónia.

Por isso se surpreenderam tanto com o facto de, ato contínuo, se ouvirem gritos vindos da Sala Comum. Gritos de ódio, dor e raiva.

Ambas se levantam e correm para lá, temendo o pior.

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