Terra

Eloy Moreno · Capítulo 33 de 205

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Terra

Capítulo 32

Assustada, atendi, mas não disse nada.

— Estou? — ouvi do outro lado, e, por um instante, poderia jurar que era ele. Não respondi.

— Estou? Está aí alguém? — voltou a insistir.

Silêncio.

— Papá? — disse, sem perceber muito bem porque proferira aquela palavra, uma palavra que não pronunciava há anos.

Papá, como se a morte fosse a desculpa definitiva para lhe perdoar e voltar ao baloiço por baixo da árvore, aos banhos no rio, às aventuras pelo bosque onde eu era uma super-heroína e ele o meu supervilão, onde todos os dias, com um poder diferente, eu salvava a Terra: umas vezes com a força extraordinária que obtinha ao comer nozes, outras, com uma capa de tecido que me dava a possibilidade de voar para os seus braços, ou com os óculos mágicos com que conseguia ver no escuro… Papá.

Desta vez, não foi a minha a voz que não se fez ouvir, mas sim a do meu interlocutor. Fiquei à espera.

Silêncio de ambos os lados.

— Nel?… És tu? — voltei a ouvir.

E, então, detetei um pequeno matiz na sua voz, ligeiro, mas suficiente para reconhecer esse pedaço de vida que se distanciara de mim.

— Sim… sou eu… — ousei finalmente responder —, mas porquê? O que significa isto? — perguntei, a tremer.

— Não sei, Nel, não sei…

A conversa esmoreceu até ao silêncio.

— Recebi um embrulho com a chave e com um telemóvel… — continuou.

— Eu também… — sussurrei.

— Havia um número gravado… marquei-o…

Por alguns instantes, ambos ficámos sem saber que fazer, tal como acontecera durante tantos anos.

— Porquê? Para quê? — perguntei.

— Não sei…

Foi nesse momento que decidi fazer-lhe a pergunta que andara a pairar na minha cabeça, a pergunta resultante da desconfiança.

— Ele está morto?

Silêncio de novo.

— Sim, Nel. Desta vez, não houve truques. Eu estava lá. A cabeça saltou-lhe, disparada.

Papá.

— Pois, mas não seria a primeira vez que… e logo ele.

— Não, Nel — interrompeu-me. — Desta vez, não. Está morto.

Silêncio.

— E porquê? As chaves? Depois de tantos anos…

— Estou há várias horas a pensar nisso e acho que, de alguma forma, ele quer que terminemos o jogo…

— Já o fizemos… — repliquei, as palavras arrastadas pela mágoa. — Ali, naquela cabana, acabou…

Não consegui evitar, comecei a chorar. Percebi que não chorava de dor, mas por tudo o que deixáramos pelo caminho; lágrimas por não termos tentado. Não chorava por aquilo que fora, mas por aquilo que poderia ter sido, por todas as oportunidades que perdemos.

— Sim, eu sei, Nel. Lamento. Não sabes quantas vezes me lembrei do que aconteceu naquele dia, mas já passou muito tempo… Porque não consegues esquecer?

Nesse momento, estive prestes a desligar, porque ele, sem saber, disparara sobre o meu ponto mais fraco, aquele que nos faz pensar se, na realidade, não somos nós os culpados. Eu fizera essa pergunta muitas vezes a mim mesma. Porque não seria capaz de perdoar, depois de tanto tempo?

A conversa voltou a cair no silêncio. Foi ele quem, mais uma vez, o quebrou.

— E se o pai te quisesse dar outra oportunidade…?

— Outra oportunidade! De quê? — gritei.

— Não sei, de lhe perdoares, ou de te dizer que lamentava o que aconteceu… Ou talvez não, talvez não seja nada disso e tenha simplesmente sido egoísta ao ponto de não querer deixar fosse o que fosse por resolver, por terminar, porque queria cumprir a sua promessa, para tu poderes concretizar o teu desejo…

— O meu desejo?! — gritei de novo, e, nesse instante, desatei a rir. — Se soubesses o que lhe disse, se soubesses qual foi o meu desejo… foi apenas a resposta de uma menina de dez anos, assustada com tudo o que se estava a passar.

«Pedi-lhe algo impossível», pensei.

Silêncio.

Silêncio entre ambos.

Um silêncio dos que antecedem a tempestade.

E, então, ouvi a pergunta que me fez vacilar.

— Nel… como estás?

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